Thursday, February 7th, 2008...2:12

Com estes inimigos…

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agencia.jpgDesfolhando a imprensa, fica-se com a ideia de que este é um governo de poucos amigos. Acontece que amigos foi uma coisa de que o governo, com os inimigos que tem tido, nunca sentiu falta. Enquanto foi preciso chegar aos 3% e desafiar as “corporações”, os seus inimigos de esquerda atiraram-lhe as pedras suficientes para convencer meio mundo de que este era um governo à altura, tomado de rigores de “direita”. Agora, que chegou o momento de exibir sensibilidade e “dialogar”, são os seus inimigos de direita que nos querem ajudar a acreditar que as mãos do governo já são tão largas como as de Guterres. E foi assim que um governo que adiou a mais grave de todas as reformas (a da administração pública) passou por “reformista”, e há-de ser assim que um governo que não vai verdadeiramente valer aos pobres, passará por “social”. José Sócrates dispõe da melhor agência de comunicação que podia desejar: a própria oposição.

http://padovacultura.padovanet.it/manifestazioni/archivio/sombra.jpegQue podem as oposições fazer? No estado em que estão, muito pouco. Nem à esquerda nem à direita alguma vez houve alternativa ao presente governo. As oposições de esquerda nunca explicaram como iam pagar, sem cortes, o Estado social; e as da direita, como se propunham relançar, sem despesas, a economia. Porque as primeiras já não têm a coragem do socialismo, que passou de moda, e as segundas ainda não têm a ousadia do liberalismo, que ninguém põe na moda. E assim, o que fica é o consenso de Estado, que qualquer grupo, só por estar no poder, pode fazer seu. Como Sócrates fez.

Clique para ir ao blog de onde tirei essa imagem!Postas as coisas assim, a política reduz-se a questões de “imagem”. E foi por aí que o anti-socratismo avançou. Com que resultados? O peso do Estado, cobrador e controleiro, justificou a insinuação de “autoritarismo” – mas precisamente num momento em que, a propósito de fugas ao fisco, corrupções, abusos de funcionários ou ameaças à saúde pública, quase toda a gente reclamava e protestava nos termos mais apropriados para legitimar qualquer autoritarismo. E quanto às investigações jornalísticas sobre o percurso de Sócrates? O facto é que as aventuras do “gang do Multibanco” e dos “300 despachos” não deixam as oposições ficar melhor na fotografia.
troiasocrates.jpg De resto, ninguém elegeu Sócrates por causa das suas perspectivas de beatificação. Elegeram-no porque ele não era Santana. E em 2009, Sócrates terá ainda essa vantagem, e mais outra: também não é Menezes. Assim descansado à direita, o governo pôde dedicar-se à esquerda. Ora, a última remodelação ministerial, tal como a candidatura de António Costa em Lisboa no ano passado, mostrou não só essa atenção à esquerda, que todos notaram, mas outra coisa mais importante: a facilidade com que o governo puxa a si, quando quer, a célebre “esquerda do PS”. Ralha muito, mas vem sempre quando a chamam.

alegre.jpgE nesta política de atracção bem sucedida, o governo não se serve só a si próprio. Serve a todos. Um partido de Alegre nas legislativas de 2009 era uma ameaça maior para o BE e para o PCP do que para Sócrates, como se viu pelos efeitos da candidatura de Alegre nas presidenciais e da de Roseta em Lisboa. Mas o CDS e o PSD também podem respirar: já não têm concorrência “à direita”. A recuperação do PSD nas sondagens, coincidindo com descida de Menezes, dever-se-á talvez a um eleitorado que anda agora a descobrir que, afinal, a esquerda não dizia a verdade quando acusava Sócrates de ser de direita. Os partidos aproximam-se assim de um ponto de equilíbrio óptimo. PCP e BE poderão fazer prova de vida eleitoral, o PSD, subir o suficiente para segurar autarquias e proclamar que por este caminho ganhará certamente as eleições de 2037, e o CDS, apostar mais uma vez em ser o eixo da governação. Eis um cenário que não convida ninguém a fazer ondas até 2009.

0001fgtk.jpgAh, mas o governo desce na montanha russa das sondagens. Desce? Com tanta gente zangada, um “barómetro” de opinião põe-o 9 e outro 5 pontos percentuais à frente da oposição. A economia tem mau prognóstico? É verdade. Só que se a economia falhar, talvez justifique um geral relaxamento de regras, como sugeriu o director do FMI – um horizonte eleitoralmente muito interessante.

Enquanto não houver alternativa, todos ajudam o governo, mesmo os que o atacam. Tirando Santana, nunca os portugueses removeram pelo voto um primeiro-ministro: porque para continuar a fazer o mesmo, preferem o que já conhecem e já lá está.

Sócrates ainda pode ficar, como Guterres, com uns deputados a menos para a maioria absoluta. Se quiserem, chamem a isso “perder as eleições”. Mas perdê-las, no sentido de outro as ganhar, é que por enquanto não se vê como.

[Rui Ramos]

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Crónica de 4ª Feira no Público [06/02/08] editada para o Blogue Atlântico

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