Monday, February 11th, 2008...12:16
JMF meets HR
A decadência raramente é sentida pelos próprios. Os europeus, em particular, não sentem o terreno que estão a perder. Fechados na sua visão particular do mundo, passa-lhe todo o Resto do Mundo ao lado. O resto que, entretanto, começou a acordar, e a reivindicar o seu lugar. O editorial de JMF de hoje apresenta uma Índia a querer recuperar o tempo perdido, trabalhando mais e melhor. Dentro de um quadro democrático, usufruindo de uma globalização que afinal até causa alguns ganhos. O Henrique Raposo pode sentir-se vingado, no seu esforço quase hercúleo de chamar a atenção para os outros oceanos (Índico e Pacífico, onde há coisas a acontecer). A ascensão da Índia representa, como diz JMF, um novo alento ao Ocidente. Porque, e aqui tenho mesmo de citar o Henrique (desculpa lá o descaramento), o Ghandi era um grande Ocidental. E a nação que ele ajudou a fundar está aí, apresentando-se como nosso aliado natural. Só falta mesmo o nosso acolhimento, reconhecendo-os como nossos iguais. O Ghandi exigia uma só Lei, sob um mesmo Rei; a Índia de hoje pede o tratamento igual no Clube das Democracias. Qual será a nossa resposta?

7 Comments
February 11th, 2008 at 12:23
A democracia e os direitos humanos não significam a mesma coisa em todo o mundo… dizer que são mantidos da mesma forma universalmente apenas por conveniência comercial como é hábito para a UE é atirar areia para os olhos dos europeus.
February 11th, 2008 at 12:24
Perdão, a decadência existe, mas nos EUA. Não na Europa, o maior exportador mundial. O único perigo que ameça a Europa são os traidores internos, os eurocépticos que sapam os esforços de união. Unida a UE será a maior potência do séc. XXI, o século europeu.
February 11th, 2008 at 12:27
no começo do séc xx já a india tinha quimicos com craveira intelectual e cientifica muito superior aos que a republica nacional-socialista , saloia e suburbana de Portugal
February 11th, 2008 at 12:31
A Índia de hoje tem tão pouco a ver com Gandhi como o catolicismo tem a ver com Jesus.
Referir as caraterísticas de Gandhi para explicar as caraterísticas da Índia é um perfeito disparate.
Gandhi era um pacifista e um adepto das aldeias e da pequena tecnologia. A Índia de hoje (e de ontem…) é um país afirmativo, que constrói porta-aviões e se mete nas grandes fábricas e tecnologias modernas. Nada tem a ver com Gandhi.
Aliás, Gandhi morreu quando a Índia se tornou independente. Não teve tempo de a influenciar concretamente. Logo a seguir a Gandhi veio Nehru, que era tudo menos parecido com Gandhi.
February 11th, 2008 at 15:00
Malta, juizo. A única coisa que a India tem actualmente de bom é produzir mais e melhores objectos: desde Porta Aviões a bonecas de plástico. Ah, e muita mão de obra para call centers. O resto é o sistema de castas, fechamento cultural quase absoluto, a imensa maioria do país com más infra-estruturas e mão de obra quase escrava, etc. “Nossos iguais”? Pois… Acham vocês que vão aí encontrar um pedacinho do Ocidente, mais ensolarado? Pobres diabos.. mais juizo têm os hippies que vão para Goa e Katmandu. Vocês, os eternamente descontentes com a Europa, os que passam a vida a queixar-se de que a Europa está decadente, papatipatata, não duravam uma semana na India fora da meia dúzia de bolhas protegidas dos centros de alta tecnologia e hoteis de luxo.
February 11th, 2008 at 20:25
“Referir as caraterísticas de Gandhi para explicar as caraterísticas da Índia é um perfeito disparate.”
Até aqui, o Luís Lavoura tem toda a razão.
“Aliás, Gandhi morreu quando a Índia se tornou independente. Não teve tempo de a influenciar concretamente. Logo a seguir a Gandhi veio Nehru, que era tudo menos parecido com Gandhi.”
Também não era assim tão diferente. O problema é que referir as características de Nehru para explicar a Índia de hoje é um disparate igual ao primeiro.
Nehru também era um “ocidental”. De esquerda, mas um ocidental. Prezava verdadeiramente coisas como a independência judicial, a liberdade de imprensa e os direitos da oposição. A democracia indiana de Nehru era, de facto, uma democracia monopartidária - mas, apesar disso, liberal q.b.; a de hoje é multipartidária, mas tudo o resto é muito pior.
Os partidos são cada vez mais confessionais, étnicos ou classistas; os juízes são meros servidores dos políticos (com excepção, para já, de parte da magistratura federal); os autarcas locais comportam-se como tiranetes, oprimindo as populações a seu bel-prazer; o caciquismo eleitoral é mais vigoroso e eficaz que o de Portugal na 1ª república; o pluralismo étnico e religioso apenas subsiste em algumas bolsas geográficas. Muito recentemente o governo indiano era composto por mais de 90 ministros - todos os deputados que asseguravam uma maioria parlamentar. A democracia indiana pode continuar a oferecer o espectáculo circense de milhões de pobres a votar, mas já não tem nada ver com a democracia do Sr. Nehru.
Se a Índia não arrepiar caminho, é uma questão de tempo até os indianos terem o seu próprio Sr. Chavez, mui democraticamente eleito, ou, o que me parece mais provável, os hindus terem o seu próprio Sr. Milosevic, também mui democraticamente eleito. Quando isso acontecer, e o actual progresso económico engatar a marcha-atrás, esperemos que os JMFs, os HRs e as AMCs deste mundo percebam a futilidade dos seus pueris entusiasmos pela “democracia” indiana.
February 13th, 2008 at 13:27
Um pouco exagerada, mas mui necessária, a avaliação de HO à complexidade que é a democracia indiana e que parece escapar às apaixonadas e, por isso, por vezes mui simplistas análises que AMC e HR fazem a este país.
Permitam-me uma breve análise ao texto de AMC, esmiuçando algumas percepções e mensagens subentendidas:
“o Resto do Mundo” (todo ele, respeitosamente, em maiúsculas)
“começou a acordar” (estava a dormir)
“reivindicar o seu lugar” (temos todos UM lugar numa hierarquia pré-defenida)
“Índico e Pacífico, onde há coisas a acontecer” (coisas e, imagine-se, a acontecer!)
“Ghandi era um grande Ocidental” (Dixit: “Western civilization? I think it would be a great idea”)
“nosso aliado natural” (natural como a terra e os rios)
“O Ghandi exigia uma só Lei, sob um mesmo Rei” (a Lei: desurbanização total, vida bucólica nos campos, sem máquinas e indústria, manutenção e aperfeicoação do sistema de castas)
“Clube das Democracias” (exclusividade: o nosso clubito, o grupo, gang; sem, e talvez também contra, os Outros, o Resto, Eles)
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