Friday, February 15th, 2008...23:18

A falta que a oposição nos faz

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É sabido que os portugueses não confiam nos “políticos”. É menos sabido que os políticos, pelo seu lado, também não confiam nos portugueses. A crer neles, Portugal é uma imensa conspiração para os impedir de aplicar os seus talentos e capacidades ao bom governo do país. Todos os portugueses, do ponto de vista da classe política, são suspeitos. Uns porque fogem ao fisco, outros porque fumam nos restaurantes, e outros ainda porque se dedicam à abominável actividade de “perseguir” o governo. Exactamente: Portugal constitui, no mundo inteiro, o único caso em que o poder político se sente oprimido pelos cidadãos.

 

http://www.marioblog.blogger.com.br/IMPRENSA%20LIVRE.jpgÉ esta, pelo menos, a tese ultimamente defendida pelos actuais ocupantes da liderança do PS. Para quem os ouve, este não é um país como os outros. Nos outros países, os jornalistas procuram notícias mais ou menos sensacionais, e os comentadores tentam escrever artigos mais ou menos polémicos – e frequentemente, essas notícias dizem respeito à biografia dos governantes, e esses artigos não são exactamente panegíricos do poder estabelecido. É assim no mundo civilizado. Em Portugal, porém, pedem-nos que acreditemos que tudo tem um sentido muito diferente. É que aqui, segundo os nossos governantes, quase todos estamos a soldo dos mais inconfessáveis interesses e com um só objectivo: emperrar o processo de beatificação cívica dos donos do Estado. E quem disser o contrário, ou é ingénuo, ou faz obviamente parte da conspiração.

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É verdade que o Dr. António Costa, quando lhe aconteceu soltar-se verbalmente no passado fim de semana a propósito deste jornal [Público], admitiu que “não sabe” se é mesmo assim. Mas o facto de “não saber” não o impede, aparentemente, de ter a certeza absoluta de que é mesmo assim, e de o proclamar cheio de som e de fúria, indiferente à estupefacção dos seus ouvintes. E perante tal desatino, a pergunta é: porque é que os presentes chefes do PS estão neste estado? Donde é que lhes vem esta compulsão para acusarem e ofenderem quem quer que os incomode ou critique? Porque é que para eles o mundo é, desde há uns tempos, um sinistro e repelente novelo de cabalas, conjuras e cruzadas, em que as mais nojentas serpentes rastejam e se enroscam com o único fim de enlamear as suas perfumadas reputações?

http://www.jornaldamadeira.pt/fotos/4_89171.jpgCorrem várias hipóteses. Há quem pense que os chefes do PS atribuem aos outros aquilo de que eles próprios seriam capazes; e há quem argumente que se trata de uma tentação de governar à russa, intimidando e calando. Em nome do decoro apropriado a um estado da União Europeia, consintam-me que proponha uma razão mais simples e menos terrível para justificar a tendência dos nossos governantes para dispararem sobre os pianistas. É esta: qualquer partido de governo precisa de adversários, resistências e dificuldades. Só assim podem os seus líderes manter a unidade do que é, no fundo, uma agregação em que quase todos têm aspiração a mandar e ninguém está totalmente satisfeito. Acontece que Sócrates e Costa não dispõem, neste momento, de inimigos que justifiquem um toque a cerrar fileiras. O resultado é Manuel Alegre.

http://clix.semanal.expresso.pt/imagens/ed1832/fotos/grande/F1-P051.jpgPara um partido de governo, só há uma perspectiva pior do que uma derrota: é um sucesso mais ou menos assegurado por falta de concorrência. A disciplina afrouxa, os correligionários tornam-se mais exigentes — e alguns chegam mesmo à insolência. Foi essa uma das razões do martírio de Tony Blair em Inglaterra. Neste momento, o maior risco para os actuais líderes do PS é que o seu próprio partido venha a gerar, através de figuras como Manuel Alegre, a oposição que, fora dele, nunca existirá verdadeiramente enquanto o PSD estiver submetido à comissão liquidatária presidida por Menezes e Santana. E daí a necessidade que Sócrates e a sua corte têm de inventar fantasmas que os autorizem a tocar os batuques da união e lealdade.

The image “http://dn.sapo.pt/2005/01/19/073888.jpg” cannot be displayed, because it contains errors.Só assim podemos compreender o estranho fenómeno de ver o governo, num país em que o Estado pode e manda tudo, a declarar-se cercado e a fazer-se de vítima, como pretexto para agredir e desconsiderar. Se Sócrates e Costa andassem preocupados e entretidos com uma liderança do PSD capaz de lhes herdar o poder, teriam certamente menos tempo para dedicar aos jornalistas e comentadores. A oposição serve para escrutinar a governação e possibilitar a alternância. Mas também para servir de alvo aos ímpetos e necessidades de confronto dos governantes, poupando assim o resto dos cidadãos, e especialmente os que fazem notícias e escrevem comentários. Em suma: precisa-se urgentemente de uma oposição que nos tire este governo de cima.

[Rui Ramos]

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Texto do Público de quarta-feira
Editado para o Blogue Atlântico

3 Comments

  • […] A falta que a oposição nos faz. Por Rui Ramos. É verdade que o Dr. António Costa, quando lhe aconteceu soltar-se verbalmente no passado fim de semana a propósito deste jornal [Público], admitiu que “não sabe” se é mesmo assim. Mas o facto de “não saber” não o impede, aparentemente, de ter a certeza absoluta de que é mesmo assim, e de o proclamar cheio de som e de fúria, indiferente à estupefacção dos seus ouvintes. E perante tal desatino, a pergunta é: porque é que os presentes chefes do PS estão neste estado? Donde é que lhes vem esta compulsão para acusarem e ofenderem quem quer que os incomode ou critique? Porque é que para eles o mundo é, desde há uns tempos, um sinistro e repelente novelo de cabalas, conjuras e cruzadas, em que as mais nojentas serpentes rastejam e se enroscam com o único fim de enlamear as suas perfumadas reputações? […]

  • […] A falta que a oposição nos faz - o artigo de Rui Ramos no Público de quarta com edição para este blogue. […]

  • “os brinquedos somos nós”

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