Tuesday, February 19th, 2008...17:26
De regresso das férias do ano novo chinês
Concordo com o Ricardo Arroja: a China tem ajudado a estabilizar os activos financeiros em dólares. (Já não concordo com as culpas dos chineses nas maleitas mundiais, pelo contrário, penso que a China tem tido um importante papel a fornecer ao mundo bens baratos; também é imperdoável levar algo a mal a uma economia cujas empresas escolhem nomes poéticos tipo Xian Long Friend, mas isto não interessa nada. E, já agora, a propósito da “mania da réplica e da pirataria”, lembrei-me de um caso de há uns três anos atrás: os Estados Unidos protestaram com mais veemência do que a costumeira contra a complacência das autoridades chinesas com a pirataria de produtos americanos. Os chineses, por uma vez, fizeram-lhes a vontade, investigaram muito, alocaram recursos a este inquérito, colocaram os seus dirty zhangs no terreno e, por fim, prenderam um grupo de norte-americanos que se dedicava à contrafacção em terras dos mandarins.)
Não entendo é a surpresa desta ajuda, visível em alguns colunistas, bloggers (que não o Ricardo Arroja, que por acaso não me pareceu surpreendido) ou comentadores de blogues que pareciam esperar (ou desejar) que os chineses resolvessem vender as suas gigantescas reservas de dólares e provocassem uma desvalorização vertiginosa do dólar e consequente colapso dos mercados financeiros americanos, extinção do Fed, impeachment do Presidente ou outras consequências de igual espetacularidade. Os chineses não são tontos. A última coisa que querem é uma crise grave a afligir o seu grande parceiro comercial que lhe diminua a vontade ou capacidade de importar da China. Por outro lado, desconfio que a desvalorização consistente do dólar não os preocupa muito, afinal os norte-americanos, até há bem pouco tempo, só a ferros arrancavam aos chineses qualquer valorização do RMB face ao dólar.
Fazendo a devida vénia aos lúcidos posts do Henrique Raposo versando “o mundo pós-europeu” e saíndo totalmente do post do Ricardo Arroja, esta questão monetária é ilustrativa da importância que os europeus ainda se atribuem sem perceberem que os seus semelhantes diferem na valorização. A moeda única foi pensada e criada com vários objectivos - que agora também não interessam - e um sonho: o de substituir o dólar como moeda de transacção internacional (enfim, temos que ver que isto se passou há quinze anos e a China ainda não se tinha revelado um tigre tão capaz). Este sonho ainda é partilhado por alguns, que aparentam ser de opinião que uma crise do dólar permitirá ao euro tornar-se a moeda de referência, como se isso fosse do interesse dos países que transaccionam maioritariamente com os Estados Unidos. Entretanto, os chineses dedicam-se a ajudar a estabilizar a divisa que lhes interessa e da qual contam ser herdeiros no longo prazo.

12 Comments
February 19th, 2008 at 17:49
“Não entendo é a surpresa desta ajuda”
A ideologia do antiamericanismo, por definição não é racional.
Claro que aos chineses não interessa sucidar-se, tendo como contrapartida chatear ou aleijar o Tio Sam.
Se o dólar desvalorizar à bruta, o tesouro que os chineses amealharam, reduz-se tb à bruta e ninguém ganha com isso.
É essa a grande virtude do comércio global…fica tudo ligado numa grande teia de interesses que tende a fazer com que os dirigentes pensem duas vezes antes de dar ao gatilho.
Claro que de vez em quando aparece um Chavez, ou um Amadinejah, mas loucos sempre haverá, inclusivamente fora do hospício, como é o caso destes dois marmelos.
February 19th, 2008 at 19:02
Você é uma lírica… os chineses estão a diversificar rapidamente as suas reservas em divisas estrangeiras. A parte do dólar desce continuamente e a do euro sobe, sobe… Tal como todos os bancos centrais do mundo, aliás… Alguns, como os russos e iranianos, já possuem mais euros do que dólares. Mas é claro que não interessa aos chineses (1 trilião de dólares em reserva !) que o dólar tenha já um crash em que perderiam uma soma astronómica de um dia para o outro…. São como o piloto de um avião com uma grave avaria a tentar uma soft landing… Agora que o euro vai substituir o dólar (não em regime de exclusividade absoluta), lá isso vai… e não falta já muito… Nos mercados de divisas ninguém diz o que está a fazer, para não provocar o caos nos mercados… Outra forma de diminuir a parte em dólares das reservas é adquirir activos nos EUA aos actuais preços baixos, porque esses não desvalorizarão como o dólar… Resultado: em pouco tempo, tudo nos EUA será de investidores estrangeiros (fundos soberanos, nomeadamente).
Mas, já agora, uma pergunta: você é europeia ou americana ?
February 19th, 2008 at 19:07
Dois artigos para vos fazerem pôr os pés na terra…
Bernanke’s State of the Economy Speech:
“You are all Dead Ducks” , by Mike Whitney
http://www.informationclearinghouse.info/article19365.htm
U.S. Credit Markets Collapsing!
by Martin D. Weiss, Ph.D. 02-18-08
http://www.moneyandmarkets.com/Issues.aspx?NewsletterEntryId=1453
February 19th, 2008 at 22:01
Ah, tinha-me esquecide deste….
February 20th, 2008 at 0:11
Euroliberal, como o José Carmo refere, num mundo de economias interligadas não é do interesse de ninguém - nem do Euroliberal - que um dos maiores intervenientes sofra uma crise económica.
Quanto às reservas chinesas, de facto os chineses não têm agravado a desvalorização do dólar; que o Euroliberal veja nisso um abandono das reservas em dólares, bem, escapa-me a lógica. E vá tentar fazer transacções em euros com os chineses que eles logo lhe dizem o que pensam da sua proposta. (Os indianos, por exemplo, aceitam.) A compra de activos norte-americanos é muito boa ideia, mas ainda falta um bocado para os americanos terem sido comprados pelos chineses ou pelos árabes. (Nem vou aqui referir o facto de os EUA serem um dos países que mais investimento estrangeiro atraiem.)
E, já que pergunta, sou europeia, trabalho com empresas chinesas e não sou dada ao wishful thinking.
February 20th, 2008 at 8:58
“A compra de activos norte-americanos é muito boa ideia, mas ainda falta um bocado para os americanos terem sido comprados pelos chineses ou pelos árabes”
O “perigo amarelo”, tb não é um papão novo. Há 3o anos, quando os japoneses compravam furiosamente na América, incluindo famosas empresas de conteúdos, os profetas da desgraça, que normalmente confundem os desejos com a realidade, escreviam exactamente as mesmas tiradas apocalípiticas.
A mania marxista de profetizar a queda dos malditos bastiões do capitalismo, renova-se a cada curva da estrada.
Ok, se não é desta é para a próxima.
February 20th, 2008 at 9:34
O calcanhar de aquiles do capitalismo é o sistema monetário apenas porque … não é capitalismo. Ainda por cima a cada crise provocada por este simples facto, atribuem as culpas ao … capitalismo.
Já tivemos uma moeda mundial e que controlava os déficits:o ouro. É anti-económico existirem várias moedas. Num mercado monetário livre rápidamente “o mercado” tenderia a usar o ouro, prata e pouco mais (básicamente porque o que elege algo para ser moeda é a sua estabilidade da quantidade total disponivel somada à estabilidade física e divisibilidade).
Enquanto os economistas se enganarem a si mesmo sobre como existe algo de positivo em fazer crescer o crédito à custa da pura criação monetária (o que em si provoca uma redistribuição de riqueza a favor de quem recebe as novas quantidades de dinheiro em primeiro lugar), o calcanhar de aquiles revela-se porque existe um incentivo a crescer a pirâmide de crédito em vez de capitais próprios.
February 20th, 2008 at 9:58
Leiam para perceber que a cama do dólar está feita:
Slouching Towards Petroeurostan, by Pepe Escobar
http://www.informationclearinghouse.info/article19388.htm
Só um cheirinho:
“The trillion-dollar question is if, and when, most European and Asian oil importers may stampede towards the Iranian oil bourse. OPEC members as well as oil producers from the Caspian may be inevitably seduced by the advantages of selling at Kish – with no dreaded middlemen. If they can buy oil with euros, yen or even yuan, Europeans, Chinese and Japanese won’t need US dollars – and the same applies for their central banks.
It would take only a few major oil exporters to switch from the dollar to the euro - or the yen - to fatally bomb the petrodollar mothership. Venezuela, Norway and Russia are all ready to say goodbye to the petrodollar. France officially supports a stronger role for the euro in international oil trade.
It may be a long way away, but ultimately the emergence of a new oil marker in euros in Kish will lead the way to the petroeuro global oil trade. It makes total sense. The European Union imports much more oil from OPEC than the US, and 45% of Middle East imports also come from the E.U.
The symbolism of the Iranian oil bourse is stark; it shows that the flight from the US dollar is irreversible – and so would, sooner rather than later, the capacity of Washington to launch wars on credit”
February 20th, 2008 at 10:08
Uma pergunta: uma europeia que se sente incomodada com o êxito do euro e com a perspectiva de triliões de ganhos com o seu futuro papel de moeda de reserva mundial e que torce pela moribunda moeda da concorrência, será uma europatriota ?
Que o dólar está a dar o berro, isso toda a gente sabe. A luta agora é entre o euro (que vai à frente com larga distância) e outras moedas (yuan, yen, rublo, futura moeda comum dos países do Golfo, etc.). Se não for o euro a aproveitar, serão outras moedas. De qualquer modo, o domínio do vencedor não será absoluto. Haverá sempre um basket de moedas a dominarem os pagamentos internacionais. Mas é importante que o euro seja a primeira dessas moedas.
O futuro das greenbacks esse é nas casas de banho, bem juntinho à retrete…
February 20th, 2008 at 11:37
CN, é claro que o padrão ouro seria o ideal se ainda fosse possível. Mas você ainda não reparou que o petróleo (as suas reservas e os petrodólares) têm ocupado o lugar do ouro no sistema monetário internacional desde 1971. Não é por acaso que até lhe chamam o ouro negro…
February 20th, 2008 at 14:34
Excelente CN, basta lembrar o Mario Soares LOL!
February 20th, 2008 at 14:49
Em 1929, os EUA seguiam o padrão-ouro , que tinha uma cotação oficial e a maioria dos outros países seguiam tb o chamado padrão-ouro de câmbio.
Quando é que foi a Grande Depressão?
De resto nenhuma moeda tem valor “intrínseco”, incluindo o ouro, que é um pedaço de mineral que serve para fazer jóias e adornos, tal como outros metais e minerais. Não vale por si, mas pelo facto de as pessoas confiarem nele….como o resto das “moedas”.
Contudo pode ser produzido às carradas…há países perfeitamente capazes de inundar o mercado.
Como é que o CN evitaria isso?
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