Thursday, February 21st, 2008...16:02
Ainda o Kosovo
“O carniceiro de Mendelssohn” de Fernando Gabriel no Diário Económico
A ONU atribuiu a dignidade de “direito dos povos” ao princípio da auto-determinação; ironicamente, o neo-imperialismo liberal impulsionado pela mesma ONU, em vez de tornar nações e estados congruentes, gera estados inviáveis a partir de nações inexistentes. O Kosovo não é um estado, nem uma nação. Uma nação é uma “comunidade política imaginada” —uma população unida por uma identidade comum, fundada na partilha de mitos e de experiência histórica. O Kosovo é apenas um território cuja soberania está a transitar, por imposição externa, da nação sérvia para a nação albanesa. Não é portanto o processo de auto-determinação do Kosovo que está em curso, mas sim o processo de auto-determinação das nações sérvia e albanesa. Este processo só estará efectivamente concluído quando as duas nações forem congruentes com os respectivos estados. Isso exige que a Albânia absorva o Kosovo, bem como os territórios de maioria étnica albanesa na Macedónia e no Montenegro. Exige também que a Sérvia anexe os territórios de maioria étnica sérvia na Bósnia-Herzegovina e no próprio Kosovo. A declaração de independência do Kosovo não encerrará o processo violento de transformação da Jugoslávia, de estado multi-étnico em estados etnicamente homogéneos, que se iniciou nos anos 90.
A interferência ocidental neste processo criou mais um Estado que se sabe à partida ser inviável. Mas terá outros custos. A Sérvia pertence ao espaço geopolítico pós-bizantino formado pelos países cristãos ortodoxos do leste e com centro geopolítico e espiritual em Moscovo. A subtracção do Kosovo a esse espaço é uma ofensa de primeira grandeza para o Kremlin e coloca em risco outros interesses estratégicos russos: os rebeldes chechenos foram dos primeiros a saudar a declaração de independência do Kosovo, comparando a luta dos kosovares albaneses contra a Sérvia à sua luta contra Moscovo. A Rússia irá provavelmente retaliar contra a NATO e a UE, escolhendo um alvo que lhe permita obter uma vitória militar que afecte directamente os interesses ocidentais. São certamente más notícias para a Ucrânia e para os estados do Báltico.

2 Comments
February 21st, 2008 at 18:01
Pode ser que agora os estado bálticos (Estónia e Letónia) comecem a tratar as minorias russas de forma decente…
Qt à Ucrânia oriental, as populações são culturalmente russas, as diferenças são mínimas.
February 21st, 2008 at 22:48
A UE foi-se meter numa alhada previsível, só para agradar ao Bush, esse paladino da Paz.
Tal como nos voos da CIA, vai aparecer, qualquer dia, um Gordon (Brown) qualquer a dizer que foram enganados e que têm de encontrar mecanismos para que estas coisas não se repitam.
Enganados ontem, enganados hoje e enganados amanhã; são enganos demais. Talvez nem sequer sejam enganos: deve ser já prostituição assumida!
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