Sunday, February 24th, 2008...22:29
Biografias
A renúncia de Fidel Castro ao poder – aliás, a renúncia ao cargo, mas não ao poder – originou uma série de biografias pela imprensa internacional. Como em tudo, não existem biografias perfeitas, principalmente quando se trata de uma figura ideológica. No entanto, e para além de vários pontos que me parecem discutíveis, há dois pontos que gostava de sublinhar.
(1) Muitas destas biografias fazem questão de distinguir o homem da revolução, um jovem sonhador que acreditava na liberdade, do ditador que monopolizou o poder cubano durante mais de 40 anos, como se houvesse um Fidel bom e um Castro mau. Há que ser claro: o herói romântico revelou-se um ditador assim que cheirou o poder. É uma tendência grave, a de romantizar indivíduos que foram responsáveis pela opressão de um povo. Põe em risco a verdade histórica.
(2) Uma outra nota biográfica absolutamente irritante é a referência de que Fidel Castro, nos seus tempos de revolucionário, andava com uma edição d’ O Contrato Social de Rousseau no bolso, como se o francês fosse uma génese do Mal. Também Tocqueville andava com a obra de Rousseau consigo, e é reconhecidamente um dos principais defensores da democracia. Assim como Kant, que afirmou ter Rousseau como uma das influências maiores. Como se não bastassem as ignorantes argumentações de Isaiah Berlin e Karl Popper de como Rousseau é um inimigo da liberdade e da sociedade aberta, agora ficamos também com a sugestão de que Rousseau é responsável pelo Fidel Castro, que assim se junta à lista dos restantes rebentos tirânicos e totalitários do francês. Tenham juízo.

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