Thursday, February 28th, 2008...2:23
A política do malmequer
Há alguns meses que, nos EUA e na Europa, os movimentos de opinião, expressos em sondagens e em comentários, andam a confundir quase todas as previsões e sabedorias. Como sempre, houve a posteriori explicações para tudo. Mas nunca como agora o trabalho de dar sentido à vida política pareceu tão desesperado e fútil.
A selecção dos candidatos presidenciais nos EUA tem sido uma feira de surpresas. Do lado dos Republicanos, Giuliani, consagrado o ano passado pela voz do povo e do dinheiro, mal chegou a entrar em campo; McCain, sem dinheiro e sobretudo sem os aplausos do conservadorismo, ganhou – mas ainda não o suficiente para riscar Huckabee do mapa. Entre os Democratas, Obama e Clinton já trocaram várias vezes os papéis de morto e de vivo. A política mais profissionalizada do mundo não acerta.
![]()
Na Inglaterra, os últimos meses foram ainda mais curiosos. Em Maio, Cameron, o jovem líder Conservador, parecia fadado para varrer um baço e cansado Brown, mal este herdasse de Blair a ruína do governo Trabalhista. Desde então, as sondagens e os comentários têm mostrado as curvas de popularidade de Conservadores e Trabalhistas presas numa imprevisível trança de altos e baixos. Para onde vai o Reino Unido? É conforme os meses.

Em França, em seis meses, a satisfação com Sarkozy caiu de 67% para 38%. Por causa das suas reformas? Não: 57 % dos franceses continuam muito contentes com o primeiro ministro, que executa essas reformas. É então uma questão de “estilo”? No ano passado, acreditou-se que a França desejava um presidente servido “ao natural”, próximo, espontâneo e transparente, em vez da habitual múmia grandiosa, fechada no Eliseu e manobrando nos bastidores. Entre um divórcio e um casamento, Sarkozy foi esse novo presidente. E agora, até a esquerda se permite acusá-lo de “comportar-se como um cidadão qualquer”.

Donde vem esta política de malmequer, bem-me-quer? Os eleitorados ocidentais parecem terras soltas e movediças, sem as disciplinas tribais que durante muito tempo ajudaram os sociólogos a explicar os seus votos e os políticos a controlá-los. Ainda houve, depois, uma época em que pareceu possível gerir a fluidez das opiniões através de uma série de regras e receitas de sucesso: mover-se para o “centro”, segurar o “núcleo duro”, gerir o que os americanos chamam “momentum”, etc. Nos últimos tempos, porém, essa culinária política nem sempre deu resultados. Nos EUA, Mitt Romney, um moderado, apareceu convenientemente endurecido, para apelar ao núcleo conservador dos Republicanos. O incansável YouTube, porém, mostrou o inimigo do aborto em 2008 a defendê-lo em 2002. É então uma questão de autenticidade? Curiosamente, os que à direita rejeitam McCain por ser demasiado “liberal”, pedem-lhe “sinais” de conservadorismo, prontos a darem-se por satisfeitos com umas simples vénias.

O problema não é só dos chamados “políticos”. Os cidadãos, quando podem, gostam de queixar-se deles, e os sociólogos e comentadores gostam de exaltar essas queixas. Mas qualquer político, até por motivos de comércio eleitoral, adoraria descobrir o que verdadeiramente pensam e querem os seus eleitores, e tornar-se o eco fiel dessas reflexões e desejos. Acontece que cada eleitor pensa tudo e quer tudo, e que o mais pequeno incidente o faz variar. Os americanos não querem combater no Iraque, mas também não querem perder no Iraque. Os europeus querem serviços públicos, mas não pagar os impostos necessários para os sustentar. Desejamos salvar o planeta, desde que isso não nos incomode demasiado. Lamentamos a extinção das nossas indústrias, mas apreciamos os preços baixos da Ásia.

Vivemos na pior das épocas para opções e decisões, num limbo entre a prosperidade e a crise, entre a continuidade e a mudança. Vai ou não haver depressão nos EUA? O terrorismo jihadista avança ou recua? Nem a estrutura do mundo, com a emergência da Ásia, é clara. Porque é que haveríamos de saber o que queremos, se não sabemos bem onde estamos nem o que somos?

Dir-me-ão: é precisamente nestas circunstâncias que nos convém gente para ir à frente e dar-nos a sensação de direcção. Falta-nos líderes? Talvez. Mas estaremos nós em condições de aceitar a disciplina de um movimento colectivo? Nunca foi fácil liderar. Mas numa sociedade sem as reverências antigas, onde os cidadãos usam pouco o velho espaço público, mas têm acesso a muita informação, é ainda mais difícil. Obama, nos EUA, mostrou que há muita gente disponível para se entusiasmar. Mas quantos estarão determinados, uma vez a festa acabada, a segui-lo no dia-a-dia das escolhas e dos compromissos difíceis?
[Rui Ramos]
-
Crónica do Público de 4ª Feira
editada para o Blogue Atlântico



1 Comment
February 28th, 2008 at 11:36
dizia-se no meu tempo de coimbra (inicio da década de 1950)
“porrada neles”
“força na verga”
“in occulum descansum est”
agradeço que façam a distribuição aos necessitados
Leave a Reply