Monday, March 3rd, 2008...11:14
Quantidade vs. Qualidade
No Expresso desta semana, Daniel Oliveira defende os professores na sua luta por uma avaliação mais justa, e tem razão quando diz que o Ministério da Educação está face a um problema muito grave, o de não conseguir trabalhar com os profissionais de que precisa para fazer qualquer mudança. Mesmo assim, há dois pontos em que me parece que se confunde.
(1) Daniel Oliveira recusa que as escolas públicas promovam o facilitismo, e acha que, na verdade, os jovens saem hoje melhor preparados do que antigamente. É falso, e a prova é que muitos conteúdos foram retirados dos programas das disciplinas por serem considerados difíceis. Não é uma questão de opinião, é um facto. Somos vítimas, cada vez mais, de uma educação orientada para o tecnicismo: quem faz Ciências Naturais não sabe o século, quanto mais a data, da Revolução Francesa; quem faz Letras e Humanidades não faz ideia do que possa ser um átomo.
Depois, afirmar que não existe facilitismo apoiando-se em estatísticas é dar um tiro no pé. Sendo um dos objectivos do governo de Sócrates a subida da taxa de sucesso escolar, as estatísticas apenas servem esse propósito de ilusão: mais alunos formados não significa que o estejam melhor que os anteriores; se não houve grandes reformas na educação, como justificar que de repente surjam jovens melhor formados? O problema é, aliás, o governar para as estatísticas, e não por uma melhor educação. O que temos hoje são maiores facilidades de acesso à escola, portanto mais gente a estudar, o que com critérios de exigência baixos resulta em mais jovens formados. Os números das estatísticas indicam quantidade e não qualidade.
(2) Quando os professores falam de facilitismo, não o fazem para criticar a escola pública, da qual são, orgulhosamente, representantes. O objectivo é o de denunciar o ensino para as estatísticas, a queda das exigências no ensino como táctica de combate ao insucesso escolar, e assim promover a reflexão e a melhoria da escola pública. Não se trata de cuspir no prato que cozinharam, nem de dizer que tudo é mau. Trata-se sim de lutar por aquilo a que dedicaram toda uma vida: uma formação que possa fazer a diferença, o contrário de uma educação nivelada por baixo. A crítica construtiva é o motor da mudança. E a nossa escola pública precisa de mudar.

20 Comments
March 3rd, 2008 at 12:20
Alexandre, que os jovens saem melhor preparados do que antigamente é uma evidência. O seu nível cultural e científico é muito melhor, em média, do que antigamente.
Quantos jovens. já agora, acha que antigamente (quarenta, cinquanta anos atrás…) sabiam a data da revolução francesa ou o que era um átomo? Eu tenho idade suficiente para saber como era a juventude portuguesa nessa altura, mesmo a mais escolarizada. Enfim, era o país que temos. Estamos melhor agora, acredite, apesar do que dizem alguns, como o VPV.
March 3rd, 2008 at 12:32
Só mais uma coisa: Alexandre, essa coisa tão em voga, desde sempre, de que a juventude de agora é burra e de que antigamente é que se aprendia é um mito urbano. Não vá nessa.
March 3rd, 2008 at 13:41
O Alexandre desvaloriza o conhecimento técnico confundido-o com facilitismo e afirma que o ensino secundário caminha na direcção de ambos. Isto não é verdade. Deixe-me dizer-lhe que o ensino secundário caminha no sentido contrário ao tecnicismo e caminha mal…
Repare, antes desta última reforma os exames nacionais faziam-se no fim do 12º ano e correspondiam a cadeiras com um volume de matéria já considerável que serviam para fazer a ponte entre o ensino secundário e o ensino superior. Hoje os exames que contam para a entrada na universidade, fazem-se no fim do 11º ano e correspondem a cadeiras que abrangem uma enorme diversidade de assuntos, mas com uma ligeireza insuportável. Dou-lhe um exemplo, os exames de física e química (dois exames distintos) foram substituídos pelo exame de “física e química”. Ora se os dois exames antigos correspondiam a disciplinas que já envolviam alguma maturidade, o novo é uma palhaçada.
Acho que é importante que o governo se decida em relação ao ensino secundário: preparar pessoas para o ensino superior ou dar uma formação genérica sobre tudo, que na verdade não é sobre nada e que não vai ao encontro das preferências e escolhas de cada um (neste blog fala-se tanto em liberdade…).
Dizer que no ensino secundário se deveria ensinar a toda a gente a revolução francesa é simplesmente rídiculo. O Alexandre, por exemplo, não deve conhecer os teoremas da Incompletude de Godel, ou a conjectura de Poincare, ou o tão trivial teorema fundamental da aritmética, todos eles resultados fundamentais em ciência, não é menos culto por isso. O Alexandre tem dois pesos e duas medidas, se calhar é porque não sabe ciência.
March 3rd, 2008 at 13:44
[…] Alexandre Homem Cristo acha que não se devem retirar conteúdos difíceis dos programas das disciplinas. É irrelevante que os […]
March 3rd, 2008 at 13:52
Se usarmos as perguntas do “Sabe mais que um miudo de dez anos?” como critério, parece que a escola actual é mais exigente do que nos anos 80 (se é mais exigente do que “antigamente”, não sei, porque não sei o que é o “antigamente”)
http://ventosueste.blogspot.com/2007/09/os-moos-no-sabem-nada.html
March 3rd, 2008 at 14:35
Miguel, o “antigamente”, toda a gente sabe o que é. Menos o Miguel ;). A coisa é do senso comum e anda a ser repetida há trinta anos, mais ou menos. Reza assim: O “antigamente” é-quando-os-comunistas-ainda-não-tinham-estragado-a-educação-em-Portugal-com-as-suas-experiências-pedagógicas-e-o-seu-facilitismo-estragando-os meninos-e-acabando-com-a-autoridade-dos-professores -e-arruinando-de-vez-o-futuro-de-Portugal.
March 3rd, 2008 at 14:45
A questão não é saber quantos jovens sabem a data da revolução francesa - é saber se ela realmente se deu e porquê. Concordo em absoluto com o Alexandre. Estamos a formar analfabetos funcionais que não conseguem (ou não querem) raciocinar fora do “mindset” em que são educados! Esta geração poderá mais rápida a procurar e encontrar respostas (geralmente na Net) para os problemas que se lhes pôem, mas fazem-no sem critério absolutamente algum (perdoem-me as pessoas que são excepção) porque não são capazes de distinguir o certo do errado. Isso leva a que trabalhos com erros científicos sejam aceites e, pior ainda, bem cotados por professores que, se calhar, “beberam” da mesma fonte. Pego num caso muito simples: a tabuada. É anti-pedagógico decorar? É, certamente. Não devemos cansar o cérebro a armazenar informação que pode ser facilmente obtida por qualquer calculadora de algibeira. Mas quando não temos uma máquina que faça o trabalho por nós, como fazemos então as contas? Se calhar não fazemos (ou sabemos), e isso talvez permita perceber porque tanta e tanta gente recorre a linhas de crédito com taxas de juro absurdas - mas isso é outra história. Em suma, não há realmente uma política de exigência na escola, e isso reflete-se na vida profissional e pessoal…
Curiosamente, G.Orwell alerta-nos em “1984″ para os perigos de não conheçermos o passado e não conseguirmos raciocinar por nós próprios… Será coincidência?
PS: O país que temos é um resultado directo da nossas próprias acções. Começemos por exigir a nós próprios rigor e correcção, e esperemos que alguém siga o nosso exemplo. Ninguém muda o mundo sozinho, mas pode sempre contribuir.
March 3rd, 2008 at 15:00
Atoardas!
Só o Pedro escreveu e bem.
«A questão não é saber quantos jovens sabem a data da revolução francesa - é saber se ela realmente se deu e porquê. »
O porquê é tudo.
Quando à converseta do António, são blá blá.
Confunde o trigo com o joio.
Que havia analfabetismo, havia. Mas não era devido ao sistema escolar em si, mas há centralização do mesmo.
Que HÁ analfabetismo, há.
Mas o mais grave não é isso, o mais grave é que haja e que se passem os alunos, porque se PASSA e não se os chumba ou penaliza.
Trazer à baila o antigamente é injusto, muitos não sabiam ler porque essa classe interessava ao Oliveira, sem piar muito que trabalhasse.
Portanto fazer analogias dessas com o “agora” é ridículo, embora que estejamos melhor, mas é um melhor aquém da Europa que se educou.
Quanto ao assunto em concreto, o governo socialista criou o monstro que agora lhe morde os pés.
Nunca foram avaliados, faziam auto-avaliações nas “comissões” democráticas escolares e todos chegavam ao topo. Agora é Governo que está com Bruxelas a apertar-lhe os calos. Toca a apertar com os professores, senão não há mais bolsos “fundos”.
March 3rd, 2008 at 15:04
Não posso afirmar a 100% que o nível de exigência tem descido, porque não conheço a fundo o nível de exigência actual.
Mas pelos comentários que vejo de professores, pelas perguntas que vejo em algumas provas/exames actuais, e pelos conhecimentos que os alunos (não) têm quando chegam ao primeiro ano da universidade, a ideia com que fico é que eles tiveram a vida mais facilitada do que eu.
Quando me preparei para os exames do secundário (há menos de 5 anos atrás), a ideia com que fiquei, é que à medida que ia vendo exames mais antigos, o seu nível de dificuldade ia aumentando.
March 3rd, 2008 at 15:06
Pedro, “O país que temos” é incomparavelmente melhor do que há trinta anos. E os jovens actualmente pensam as causas das coisas (incluindo a revolução francesa) muito melhor do que faziam os jovens nessa altura. E sabem inclusive raciocinar sobre números, e decidir com base neles, muito melhor do que os jovens antigamente, ainda que estes soubessem papaguear melhor a tabuada do que os jovens de agora.
Sobre “a vida profissional”, os jovens estão agora muito melhor preparados. As empresas estão cheias de jovens talentosos e muito profissionais.
Mas será que já ninguém sabe como era realmente a educação antigamente e o que se aprendia e como se pensava? Eu fico sinceramente espantado!
March 3rd, 2008 at 15:13
«A questão não é saber quantos jovens sabem a data da revolução francesa - é saber se ela realmente se deu e porquê. »
Sim, amigo Vicissitudes, o Pedro tem muita razão. Antigamente discutia-se imenso as causas da revolução francesa (e das outras) nos liceus e faculdades. De facto, e ao contrário de agora, a malta fartava-se de discutir as causas e tal… Eramos um povo de pensadores.
March 3rd, 2008 at 15:17
Não posso deixar de ler o António que dá vontade de rir.
«As empresas estão cheias de jovens talentosos e muito profissionais.»
António, a educação era mais rígida.
Quanto fala no antigamente a que se refere? Antes do PREC? antes do desastre de Abril? Antes de Salazar? No tempo do Pimenta e Castro? Antes da Monarquia Constitucional? Não o percebo, seja concreto, porque essa retórica que utiliza para defender o que não tem defesa é má para quem aqui lê este blog.
Não está em causa o pensar, está em causa o facilisitmo que se reflecte no dia a dia e a LONGO prazo traduz-se num despautério educacional.
Acha que é positivo acabarem com os exames nacionais de final de curso?!
Acha que é positivo não poder expulsar um aluno dando-lhe o sentimento de impunidade? Excesso de oportunidades?
É um mundo discutir estes aspectos, acho que o senso diz tudo, sem educação “competitiva” que eduque o esforço para um mercado capitalista, nada feito. E isso está a reflectir-se hoje.
Quanto aos professores nem há opinião.
March 3rd, 2008 at 15:19
Não discutiam PORQUE havia repressão.
Não era por desconhecimento.
Quando falo “nestes” refiro-me à classe urbana e classe média.
A classe baixa por óbvio que não tinha esse conhecimento, porque as escolas não chegavam à “aldeia” remota.
Entenda o que está em causa, o método de ensino e não o que se sabia ou não.
March 3rd, 2008 at 15:56
Vicissitudes, o meu “antigamente” é igual ao seu, exactamente. O seu é o “desastre de Abril”, não é? Pois é esse o meu, também.
E há muitos aspectos com que não concordo com o actual sistema de ensino. O que eu digo é que o balanço geral é melhor do que o balanço do antigamente.
E eles não “discutiam”, não por haver repressão (não somente por isso…), mas simplesmente porque discutir causas não estava no programa da mentalidade da altura. O método de ensino não incluia a discussão. Isso em Portugal raramente aconteceu, ao longo da sua história. Começou a acontecer depois do “desastre de Abril”. Olhe, para fer com são as coisas, há até quem diga que é o excesso de discussão de causas nas salas de aula que é a nossa desgraça… ;).
E as classes chegavam à aldeia remota, sim senhor, ao contrário do que afirma. Quem lhe disse o contrário, informou-o mal. Muitas escolas rurais foram fechadas entretanto, por falta de alunos. O ponto é que nas escolas, sejam as rurais, sejam as urbanas, o ensino era deficiente. Vá lá, tinham a vantagem de ensinar a contar pelos dedos, dispensando as terriveis máquinas de calcular, esse flagelo civilizacional.
Meu caro, pegue por onde pegar, pelo método, conhecimento, etc, o caso é o seguinte: qualquer puto actual com treze anos daria uma “abada” a um puto de treze anos de antigamente, no que quer que seja a nível de conhecimentos.
March 3rd, 2008 at 16:20
Correcção:
Em vez de “O seu é o “desastre de Abril””, deve ler-se, “O seu é antes do desastre de Abril”
March 3rd, 2008 at 18:02
Tirando as tiradas do saudosista Sr Vicissitude(s) , por dificíl que possa parecer, tanto o Pedro como o António não deixam de ter razão. Ambos.
Tenho 39 anos, e hoje tenho um filho no sistema de ensino. Portanto fiz o ensino secundário nos anos 80, numa escola sobrelotada, 4.500 alunos, por entre os grupos de Neo-Punks & afins, as passas, os grupos dos “Betinhos” e os exames do 12º ano. Que eram bem mais exigentes do que os exames actuais. O ensino tinha menos recursos mas requeria bem mais esforço por parte dos alunos, não só em termos de conteùdos mas também das provas, ainda que num ambiente socialmente desfavorável (crise economica de 81-83, menor escolarização dos pais, menores recurosos e infraestruturas, etc …) O problema era que os programas eram extensos, fragmentados e não tinham em conta que os alunos vinham de ambientes sociais muito diversos (e então, ainda não nivelados pela TV e internet ) e os resultados eram um incentivo ao abandono escolar pelo afastamento entre as exigências e aquilo que o sistema conseguia que os alunos médios finalmente apreendessem. Os extensos programas tentavam colmatar a destruição das “escolas comerciais e industriais” cursos médios por excelência num Portugal carente de jovens licenciados, com um “banho de cultura geral”. Sem sucesso. Mas os poucos alunos que concluiam o secundário e acediam ao ensino superior eram mais politizados. Pareciam mais “cultos e informados”. Na realidade eram cerca de 18% do total de jovens que tinha iniciado o ensina na 1ª classe… Uma especie de elite …
Agora a televisão, a internet e o facto de os pais serem bem mais informados e escolarizados esconde a falta de exigência de um sistema que està destinado a produzir “boas estatisticas”. Desmantelou-se uma das poucas boas heranças do Estado Novo, (talvex mesmo a ùnica) : as escolas profissionais dentro do sistema de ensino “normal” para se dar primazia à “via de ensino” e excluiram-se centenas de milhar de alunos por completo e absoluto desinteresse pelas “camadas de verniz cultural” democraticamente pinceladas, sem que isso significasse uma capacidade de raciocinio ou autonomia de pensamento do aluno. Mas que os nùmeros são bem mais “democráticos” e com razão … Só que tenho a certeza que o aumento da escolaridade dos pais e dos professores, a TV e a internet tiveram pelo menos tanta importancia como as laterações de conteùdos e do grau de exigência das provas ou da total ausência delas, nesses resultados “bem mais proximos dos nossos parceiros europeus”… Pois, claro ! …
March 3rd, 2008 at 22:49
Como aluno do 12º ano de Ciências Sociais e Humanas(as antigas Humanidades), e ao ler este post e os comentários não pude deixar de falar. Primeiro para aplaudir o post, em si, e depois alguns dos comentários, em especial o do pedro. Parece-me que é, regra geral, reconhecer que há muitas coisas mal no ensino português. Eu, (por falta de experiência, apenas), não me vou pronunciar sobre o “antigamente”, o que quer que ele seja. De experiência própria, sei apenas que nós,alunos vivemos governados pelas médias, e quase que somos obrigados a aceitar, sem discussão o que é conteúdo programático. Aparece assim o “mind set”, que o Pedro falou. Os alunos não são “forçados” a pensar. Aceitam o que é dito. “É isto que me chega aprender? É isto que me chega para tirar boa nota? Óptimo!”. Vivemos também, com um certo medo do futuro. Questionamo-nos muitas vezes se vale a pena todo o esforço, o tempo, etc.. Mas isso é outra história. Acho que acima de tudo, e se as politicas dos sucessivos Governos, estão erradas ou não, sinto-me incapacitado para discutir.Acho que acima de tudo também falta muita informaço a todos os alunos, que se perguntam constantemente o que andam a fazer na escola. Falta-lhes perceber, talvez, que é na educação que os países e eles próprios se constroem… (Chamem-me idealista…)
March 4th, 2008 at 8:11
Tony Ramas. Referiu, 81-83.
Referi-me ao sistema de ensino das décadas de 30 à 60.
Refiro-me ainda ao sistema de exigência e a punidade que se fazia sentir.
A escola não ensina só datas, a escola constrói estrutura que é necessária para aprender outras coisas.
Há alguma dúvida disso?
Quanto ao resto falou e bem do verniz cultural que é revestido pela Internet, televisão, Wikipedia.
Isso não é “aprender” é decorar num facilitismo acéfalo.
São maneiras diferentes de estudar, porque eu fiz isso nas aulas num sistema de facilitismo.
Noutros tempos quem queria pesquisava de outra maneira que não de acesso fácil, logo o ensino era diferente e custoso.
March 4th, 2008 at 8:15
Pode é contrapor o que se diz muito à guisa ortodoxa, que a escola não são os Pais nem tem de os substituir. Aí sim, a discussão é outra.
March 4th, 2008 at 9:50
O que é de fartar de rir é ver a direita completamente despreocupada com os resultados e apenas querer que as coisas sejam difíceis para encher o seu próprio ego.
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