Tuesday, March 4th, 2008...10:27
O segundo fim (não-anunciado) da URSS

Dmitri Medvedev oferece uma nova imagem à Rússia. Primeiro, fala inglês – o que pode parecer coisa pouca deste lado da Europa, mas faz uma grande diferença do lado de Leste. Falar inglês, no mínimo, implica saber ler e ouvir discursos mais liberais. Depois, a sua carreira enquanto advogado parece oferecer alguma esperança quanto ao estado de direito. Medvedev insiste na importância do primado do direito, algo que considera nunca ter existido na Rússia. A verdade é que, mesmo não sendo a Gazprom um exemplo de transparência, Dmitry Medvedev respeita estritamente a lei, e nunca foi acusado do contrário. Até agora não lhe podiam ser imputadas culpas sobre a fraca legislação, parca em regulação e falhada em substância. Enquanto gestor, limitava-se a usar a lei disponível. Se os últimos tempos têm vindo a assistir a uma certa recuperação da antiga retórica soviética, para Medvedev a URSS está enterrada, e bem, a seu ver. O novo Presidente nada tem a ver com o período soviético, seja do ponto de vista político, seja na abordagem económica.
Há, assim, diferenças substanciais neste novo líder. Por um lado, não é um siloviki, o que faz com que não seja possível ler KGB nos seus olhos, como McCain dizia de Putin. Convenhamos que já é um grande avanço, tendo em conta o autoritarismo destes últimos anos. A sua carreira civil permite-lhe também olhar finalmente para a reconversão económica russa. Ainda que alguns comentadores não acreditem nessa possibilidade (a Rússia é gás e petróleo, e mesmo assim aproveita-os de maneira ainda ineficiente), inevitavelmente a Rússia terá de encetar um caminho de diversificação. Afinal, dificilmente se poderá comparar à Noruega, em termos de viabilidade futura. Finalmente, mais importante que a política externa, neste momento, é a política interna. Um país em suicídio demográfico não pode aspirar a ser um grande poder. Arrumar a casa deveria ser a grande prioridade de Medvedev, presidente provisório ou não.

8 Comments
March 4th, 2008 at 11:18
Nunca fez mal a democracias recentes e inexperientes algum autoritarismo para repõr a eficácia e anti-corrupção à estrutura de Estado. Além disso, quem mais está próximo de “ameaças islâmicas” (quem acredita na grande conspiração islâmica) e separatismos internos, terrorismo, etc?
Será algo estranho à direita perceber tal coisa (por vezes penso que sim…)?
March 4th, 2008 at 12:58
“algum”
Que bom argumento ó migo CN. Uma coisa justifica a outra?!
As eleições podem ser livres ou não?
Se me dissesse que é necessário centralizar esse vasto território…
Daí a dizer que é necessário repressão ou autoritarismo e acima de tudo, forjar eleições.
Desculpe sô´ Videla.
March 4th, 2008 at 13:01
Excelente post, Ana Margarida.
March 4th, 2008 at 16:28
Cara Ana Margarida,
Discutir a situação da Rússia actual sem conhecer a obra de Anatoliy Golitsin conduz a grandes enganos. Dmitri Medvedev não passa de uma marioneta dos serviços de segurança. Se ele fosse uma ameaça ao sistema, não existiria. Não cometa o erro da maior parte dos analistas acidentais: Subestimar a capacidade da elite que de facto governa a Rússia.
March 4th, 2008 at 16:30
-Só saberemos verdadeiramente o que esperar de Medvedev, quando existirem divergências com o futuro primeiro ministro, Vladimir Putin. A constituição russa assenta num poder do presidente, será curioso ver V. Putin com menos poder que Medvedev, esperemos…
March 4th, 2008 at 17:37
e não há ninguém para dizer que os gajos atrás do Medvedev são os Deep Purple?
March 4th, 2008 at 18:54
Existe um velho ditado militar (pode-se dizer baseado numa experiência de séculos) que diz:
“Faças o que fizeres, nunca invadas a Rússia”
Quem começou sem qualquer pudor a “colocar-se” (as expressões geo-estratégicas são de rir) na sua fronteira (Estados que nunca na história sequer tinham existido fora da Rússia), numa altura em que Putin “era amigo” (forma de dizer) e com a estrutura de Estado ainda em recuperação…
Existe assim outra lição possível na história: não tirar partido de grandes nações debilitadas, porque o estado de debilitado costuma ser apenas temporário e depois essas coisas acabam a fazer ricochete.
Pior ainda fazendo do moralismo exarcebado o fio condutor de uma lógica de relações internacionais. Já não chega ser democrático, tem de ser “democrático como nós dizemos…or else”…(e falta saber … “or else” quê?).
March 4th, 2008 at 22:18
SMOKE ON THE WATER….
…a fire in the sky…
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