Saturday, March 8th, 2008...15:23
Ainda Timor
Os atentados contra Ramos Horta e Xanana Gusmão em Timor Leste representam o falhanço daquilo que ficou conhecido pelas doutrinas Clinton e Blair, como intervencionismo humanitário. Esta tese, segundo a qual o uso da força é justificável pela “comunidade internacional” se determinados pressupostos humanitários não estiverem a ser respeitados num determinado território, passou entre outros pelo Kosovo, pela Serra Leoa, por Timor e agora prepara-se para ir para o Chade (até agora sem grande sucesso). De acordo ainda com esta doutrina, muito enraizada desde que a “democracia triunfou” em 1989-1991 e por aí adiante, a soberania acabava por ser um fim em si mesmo e não o início de um longo processo político, económico e sobretudo militar. Dizemos “sobretudo militar” porque sem umas Forças Armadas sob a tutela do poder político e com capacidades mínimas de eficácia – isto é, sem depender eternamente de forças internacionais – não há base de desenvolvimento democrático num determinado Estado. Timor Leste, uma ilha, não tem Marinha (cerca de 30 homens), vive da manutenção de forças internacionais e não criou condições para que a sua soberania fosse um motivo de responsabilidade de todos os seus cidadãos.
Por outro lado, o falhanço do intervencionismo humanitário enquanto a regra das relações internacionais pós-guerra fria, assenta ainda numa razão lógica: ao ser exigido um compromisso de longa duração à “comunidade internacional” que leva a cabo essas acções humanitárias, esquecemo-nos que elas são, na esmagadora maioria, sempre as mesmas e quase sempre democracias. Ora, este esforço político tem limites muito próprios, o que revela em última análise que esses compromissos nunca poderão ser assumidos por muito tempo. O problema é que construir um Estado não se faz do dia para a noite, nem sem acompanhamento internacional. Mais uma pescadinha de rabo na boca da política internacional.

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