Monday, March 10th, 2008...9:59

Entrevista a Cavaco Silva

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Quando Aníbal Cavaco Silva celebra dois anos na Presidência da República, republicamos na íntegra a entrevista que concedeu à Revista Atlântico na edição de Dezembro de 2005, era então apenas um dos candidatos presidenciais. A entrevista foi conduzida por Helena Matos, Luciano Amaral, M. Fátima Bonifácio e Rui Ramos. O título actual é da nossa responsabilidade.

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“Confio em que a História não se repetirá e que o Governo completará a legislatura” 

O senhor professor definiu as suas ambições como objectivos realizáveis pelos portugueses. A minha pergunta é: não receia que isso possa ser lido como sinónimo de promessas e consequentemente correr o risco de gerar frustração?
Cavaco Silva – Eu tive o cuidado de dizer que as minhas ambições para Portugal, aquilo que quero para o meu país, não eram promessas, não eram políticas a executar. Eram sim orientações inspiradoras da minha acção, caso fosse eleito Presidente da República. Acho que a primeira coisa que se exige a um Presidente da República, ou a alguém que queira ser Presidente da República, é que tenha uma visão clara quanto ao futuro do país, para os próximos cinco, dez, até quinze anos – pode eventualmente ultrapassar, e normalmente ultrapassa, o período do seu mandato – que  tenha essa visão do futuro e que seja claro, para que os portugueses saibam quais são as balizas da sua acção. E por isso eu tive um grande cuidado, espero que isso tenha sido entendido pela maioria das pessoas, de/em frisar que não estava em causa execução de políticas ou promessas de que eu pudesse garantir a concretização.

Definiu as suas propostas como correspondendo aos anseios dos portugueses. Mas por outro lado deu a entender que seria necessário um factor de pressão externa para as mudanças serem feitas. O que é que se passa para estes anseios não terem correspondido a acções por parte dos políticos?
Eu defini seis grandes ambições. A melhoria da qualidade da nossa democracia, onde incluo também o funcionamento do sistema de justiça, a administração pública, as forças de segurança e até uma comunicação social livre, autónoma, responsável, e uma sociedade civil também autónoma e também com uma cultura ética. Depois, uma segunda ambição que consiste em reencontrar o caminho de aproximação ao nível de desenvolvimento médio da UE e da Espanha. Uma terceira, que é o aumento da qualificação dos recursos humanos, um problema que na minha opinião justifica uma mobilização quase geral dos órgãos de soberania, incluindo o Presidente da República, para tentar corrigir uma situação que é grave. Uma outra que implica a correcção do desordenamento do território, o desenvolvimento cultural, a melhoria da qualidade ambiental. As restantes são a construção de uma sociedade mais justa e mais solidária e tornar Portugal um protagonista activo e credível na cena internacional. Parece-me que as minhas ambições correspondem aos grandes anseios da população, talvez não só de agora mas já de algum tempo, mas que têm dificuldade em concretizar-se. Uma das dificuldades reside nestes ciclos políticos curtos que se têm vindo a verificar em Portugal. Cheguei a pensar, durante o período em que fui primeiro-ministro, de 1985 a 1995, que se tinha entrado numa normalidade quanto a mandatos, e que portanto os ciclos políticos teriam a duração normal dos seus quatro anos e que era possível ter uma perspectiva alargada quanto aos objectivos a alcançar e quanto às políticas a realizar. Mas nós entrámos, nos últimos anos, em ciclos políticos curtos, que prejudicaram de facto que houvesse continuidade das políticas. Posso dizer que há uma única política em relação à qual tem havido uma certa continuidade, porque há um consenso alargado, que é a política externa. Na situação actual, em que temos um governo de maioria absoluta, pensar-se-ia que todas as condições estavam criadas para que essas grandes ambições tivessem resposta. Há no entanto um factor que não se está a verificar, que é o da  confiança. Se não forem as próximas eleições presidenciais a injectar uma dose de confiança na sociedade portuguesa, então interrogo-me qual é o evento futuro que poderá fazê-lo.
Ninguém pense que sem confiança o investimento vai ser feito, ou que os empregos vão ser criados, ou que sem confiança os capitais ficam aqui, ou que os talentos são suficientemente bem aproveitados. Eu acho que o Presidente da República pode desempenhar aqui um papel como factor de confiança e factor de credibilidade.
Por outro lado, o Presidente, não sendo governo nem podendo legislar, deve estar bem consciente daquilo que é preciso fazer para vencer as actuais dificuldades. Isso pressupõe que o Presidente da República, para além de ter uma ideia quanto ao rumo certo para o futuro do país, entenda a envolvente internacional de Portugal, entenda o quadro da globalização, do alargamento para Leste, da pertença à União Monetária Europeia, à zona do Euro. Perceba o nosso posicionamento dentro de uma Europa que neste momento está num impasse, com muitas hesitações. Se o Presidente da República perceber isso, então pode fazer aquilo que eu defino como cooperação estratégica e não apenas cooperação institucional. Por exemplo, se nós reconhecermos que a única forma, neste momento, de nos voltarmos a aproximar do nível de desenvolvimentos dos outros países é reforçar a competitividade das empresas, isso pode ser erguido à categoria de objectivo quase prioritário, como um objectivo nacional. Então, penso que Assembleia da República, Governo, Presidente da República e até partidos de oposição, através de algum tipo de consenso que se estabeleça, podem empenhar-se para consolidar esse objectivo na sociedade portuguesa. É preciso um presidente que entenda tudo isso, que domine essas matérias.

Quer isso dizer que, como Presidente da República, se imagina a receber os sindicatos em Belém?
Sou um defensor da concertação social e contrariamente ao que recentemente se tem dito eu fui o único primeiro-ministro que conseguiu realizar seis acordos de concertação social. Há um livro publicado pelo Conselho Económico e Social que se chama Acordos de Concertação Social em Portugal só tem acordos de concertação social assinados por mim ou por ministros meus. Ora nessas condições eu acho que o Presidente da República não pode fugir a receber as confederações sindicais tal como não pode fugir a receber as confederações empresariais.
Agora, com certeza que o Presidente da República deve ter todo o cuidado em receber sindicatos quando eles estão numa situação de conflitualidade com o poder executivo. Isso é totalmente diferente.

Voltou a falar no seu desejo de estabelecer uma cooperação estratégica com o Governo. Se for eleito e o Governo lhe apresentar um orçamento que não merece a sua concordância ou se dentro de dois anos o défice público se mantiver insensível, mantém a cooperação estratégica?

Temos que aqui distinguir entre candidatos à Presidência da República que consideram que podem ser eleitos e candidatos que não têm a mínima pretensão de ser eleitos. Aqueles que pensam  que não serão eleitos e que estão apenas no combate partidário, podem responder a tudo. Os outros que pensam que podem ser eleitos acho que eles devem evitar responder sobre cenários ou sobre hipóteses especulativas que se possam colocar. Disse no meu manifesto, que embora o equilíbrio das contas públicas não seja (como eu próprio escrevi há muito tempo num livro) um objectivo em si – os objectivos em si são aqueles que estão directamente relacionados com o bem-estar das populações, seja o emprego ou a redução da inflação, etc. –, ele é uma condição para o desenvolvimento sustentável do nosso país. E disse mesmo que mais importante do que resolver o desequilíbrio das contas públicas, que é importante para a sustentabilidade do nosso desenvolvimento, é conseguir resolver problemas como o funcionamento do sistema de justiça, a burocracia excessiva da nossa administração pública, a qualidade dos nossos recursos humanos, a redução da nossa dependência energética em relação ao exterior, essas são questões mais estruturais. Se for escolhido, serei um presidente atento à acção do governo. Muito atento em relação à acção do governo mas não irei tomar agora posição concreta em relação a medidas concretas que possam chegar no futuro. Terei que analisar cada uma delas de acordo com as tais ambições, porque essas é que vão balizar a minha actuação, essas é que inspirarão a minha actuação, essas é que inspirarão a minha acção na análise daquilo que fizer o Governo. E acrescento que essas discordâncias que às vezes podem existir, acho que um presidente deve manifestá-las em primeiro lugar e discuti-las em primeiro lugar, em privado com o primeiro-ministro. Acho, por experiência própria, que as reuniões entre o Presidente da República e o primeiro-ministro têm uma grande importância. E se o Presidente da República estiver bem preparado então estou certo de que o primeiro-ministro chegará lá também bem preparado, para tratar das matérias em profundidade. Mas repare, e com toda sinceridade, eu nunca seria candidato a Presidente da República se imaginasse que a grande tarefa que ia ter na mão era dissolver a Assembleia da República, demitir o Governo, mandar dúzias de diplomas para o Tribunal Constitucional, vetar a nomeação de A, B ou C… Isso dá pouco com a minha personalidade. Numa entrevista à Maria João Avillez, na Sic-Notícias, em Março de 2004, disse que só aceitaria candidatar-me à Presidência da República em circunstâncias especiais ligadas ao futuro do país. E foi precisamente a minha análise quanto ao que poderia ser o futuro do país, se as eleições presidenciais não marcassem uma viragem, que me levaram a decidir…

Em tudo aquilo que nos disse hoje e que tem dito nesta fase de pré-campanha não se nota vontade de colorir um pouco o discurso com aspectos de carácter mais ideológico. Como se as ideologias não existissem. Isto não é verdade já que o nosso sistema político tem uma certa ideologia de sustentação.  O momento não será propício a que se pensem com mais profundidae as características do nosso sistema político e económico?
Tenho sido coerente ao longo do tempo, na medida em que me tenho sempre afirmado como social-democrata. Isso criou algumas dificuldades a alguns analistas em me classificar ideologicamente. Lembro-me de ser atacado por um lado e ser atacado pelo outro. Conheço as virtualidades do mercado tal como reconheço as insuficiências do mercado. Sei que existem falhas de mercado e acho que o Estado não pode ficar confinado às funções de soberania. Para além das funções de regulação, existem também as funções redistributivas que penso que na sociedade europeia não se podem dispensar tal como não se podem dispensar as funções voltadas para a igualdade de oportunidades. Agora escrevi no meu manifesto que acho necessário aceitar a discussão das funções do Estado neste princípio do século vinte e um. Porque foi a partir dos anos sessenta que se começou a desenvolver em toda a Europa um crescendo de Estado e que chega a Portugal mais tarde. Os nossos sistemas de segurança social chegaram aqui mais tarde: os rurais não estavam cobertos pelo sistema de segurança social, fez-se o alargamento da população que podia beneficiar dos subsídios de desemprego… Mas acho que na situação em que está hoje o mundo, a Europa começa a aceitar, um pouco mais abertamente do que há doze ou quinze anos atrás, a necessidade de discutir as funções do Estado. Foi nessa linha todo o discurso do Blair, feito em Estrasburgo no Parlamento Europeu no início da presidência. Eu acho que Portugal deve aceitar, deve aceitar essa discussão…

Ou seja, veria com agrado a possibilidade de enquanto Presidente da República ter um primeiro-ministro reformista como Tony Blair?

É sempre difícil falar sobre um líder porque ao falar sobre um, esquecem-se outros. É sabido muito bem que a Europa neste momento tem alguma carência de líderes. Acho que nessa matéria vivi um tempo diferente e um tempo mais positivo e concorde-se ou não com eles, um Miterrand, um Delors, um Kohl, uma Thatcher, um Filipe Gonzalez tinham a sua capacidade de liderança e tinham uma visão prospectiva da Europa.
Havia uma convicção europeísta, mesmo com uma dimensão de solidariedade. Eu acho que a Europa está hoje mais egoísta, mais nacionalista e acima de tudo está a jogar mais na defensiva. Porquê? Porque não sabe bem qual o caminho que deve percorrer. Tony Blair foi um líder inteligente, aproveitando as mudanças que tinham sido feitas no passado por governos conservadores e depois entendendo mais rapidamente que outros que a globalização estava aí para ficar e para aumentar. E era neste quadro de globalização que ele teria que arranjar a competitividade da própria Inglaterra, isto é, não continuar a produzir as mesmas coisas que os outros agora são capazes de produzir muito mais barato mas percebendo que há que inovar. Há que alterar a estrutura da produção, há que aproveitar as novas tecnologias e depois aparecer nestes mercados globais a vender mais produtos de tecnologia avançada. Não penso que Blair tenha conseguido concretizar tudo o que queria em relação à Europa. Acho que ele é um europeísta também, utilizou o seu melhor sorriso para convencer os ingleses… Mas eu vivi em Inglaterra durante três anos e sei que os ingleses não são assim tão fáceis de convencer nestas matérias.

No livro que publicou há dez anos, quando acabou o seu mandato, Reformas da década, revela que o PS se teria oposto a cerca de setenta por cento das suas propostas de reformas estruturais. Não acha que talvez seja tempo da sociedade portuguesa reconhecer que há decisões que nunca serão consensuais?
Por alguma razão eu defendi a existência de maiorias absolutas. A maioria absoluta não significa poder absoluto. Significa fazer exercer o poder da maioria quando não é possível o diálogo.

Mas na sua autobiografia o senhor professor diz que, após ter obtido a sua primeira maioria absoluta, em 1987, sentiu que não tinha todas as condições para fazer aquilo que julgava que deveria ser feito…
As mudanças a fazer em Portugal nessa altura, eram mudanças, em alguns domínios, de grande profundidade. E o entendimento foi de que teriam de ser feitas gradualmente. Basta ter presente as leis laborais que se herdaram e que vinham desde 1975. Foram feitas três alterações, a primeira até suscitou uma greve geral – o que não impediu que a seguir eu tivesse uma maioria absoluta! –, mas as outras foram alterações mais pequenas. Conseguiu-se um acordo na concertação social, em que a UGT acabou por aderir. Acho que se for possível fazer as mudanças sem tensões excessivas,todos ganhamos. Sou um defensor da concertação social primeiro porque permite a troca de informação. Depois porque permite conseguir uma maior conciliação entre interesses de grupos específicos, e aquilo que o poder político interpreta como interesse nacional.
Em 91, numa campanha eu disse: se não derem a maioria absoluta ao PSD, dêem a outro partido. Mas dêem uma maioria absoluta. Porque era um tempo em que as mudanças a fazer eram tais que eu não via como é que elas podiam ser feitas – e porque tinha a experiência do primeiro Governo que era minoritário e em que tudo era bloqueado – se não existisse uma maioria absoluta.

Apesar de ter obtido uma maioria absoluta, José Sócrates confronta-se com uma forte contestação por parte dos magistrados, das forças de segurança – os polícias ameaçam deixar de comprar fardamento, os juízes apresentaram uma queixa na ONU… Pode concluir-se que o primeiro-ministro José Sócrates poderia contar com o professor Cavaco Silva caso fosse eleito Presidente da República como um apoiante nas suas políticas reformistas?
Não vou responder sobre casos concretos. O que vou dizer é: um governo de Portugal, qualquer governo, contará ou deve contar com o apoio do Presidente da República para a concretização daquelas medidas que são indispensáveis para o desenvolvimento e a modernização da sociedade portuguesa. Devendo fazer isso com sentido de justiça e solidariedade social, tentando preservar a coesão e sem pôr em causa a competitividade das empresas portuguesas no plano externo. Referiu a justiça. Eu não fujo a comentar de forma geral o caso da justiça. Todos, incluindo os agentes da justiça, reconhecem que é necessário melhorar o funcionamento do sistema. Até agora o que se falava acima de tudo era da morosidade e de alguma ineficiência do sistema. O que surgiu agora foi outra coisa. O que surgiu agora é que aos olhos da opinião pública a justiça aparece como não muito prestigiada. Penso que ninguém ganha com isso. Porque o sistema de justiça é o último reduto a que nós recorremos para a defesa dos direitos, liberdades e garantias. Todos, e aqui incluem-se todos os agentes políticos e até os agentes do sistema judiciário, e do sistema do Ministério Público, todos têm que estar empenhados em restituir o prestígio ao sistema de justiça. Porque o estado democrático precisa, como de pão para a boca, de um sistema de justiça prestigiado. É provável que nesta matéria ninguém esteja isento de culpas.
Eu, como Presidente da República, é aí que me posso empenhar, não é nas medidas concretas, nas reformas concretas, mas sim a fazer o que estiver ao meu alcance para que se restitua aos olhos da opinião pública, credibilidade e prestígio ao sistema de justiça.

Pode concluir-se das suas palavras que a imagem que tiver a pessoa que for eleita Presidente da República é tão importante como as competências que segundo a Constituição e as praxes constitucionais portuguesas pode ter esse Presidente da República?

É isso mesmo. Só que vai ser o povo português quem vai fazer esse juízo.  Eu não sou dono nem do voto nem da vontade dos portugueses. E agora os candidatos que estão aí, com certeza que vão apresentar as suas propostas e falar com o povo português. Eu confio no julgamento que o povo português irá fazer.

Como é que explica a forte reacção que o seu nome suscita em alguns meios? Não haverá um preconceito ideológico contra si?

É salutar que nem todos estejam de acordo. Com certeza que há pessoas que acham que os meus dez anos como primeiro-ministro foram muito positivos. Até estou de consciência tranquila porque existe uma série de relatórios internacionais que me ajudam a ficar de consciência tranquila e ainda tenho outro dado objectivo: duas vezes obtive mais de cinquenta por cento dos votos do eleitorado, que julgou essa política. E mesmo depois, quando fui a uma eleição presidencial, ainda tive quarenta e seis vírgula dois por cento dos votos. Não me parece que tenha sido um resultado assim muito mau, depois de dez anos como priemiro-ministro.
Considero que o povo português vai ter que julgar cada um dos candidatos face às circunstâncias actuais do nosso país, que não têm nada a ver com situações em que ocorreram outras eleições presidenciais. Portugal está numa situação difícil e o nosso problema não é apenas um problema económico. Começo logo por referir no meu manifesto os problemas do funcionamento do sistema político, e depois os problemas da administração pública, da justiça. Depois a qualidade dos recursos humanos, a degradação da qualidade ambiental e da ocupação do território. A situação é difícil em várias áreas mas as questões económicas ganharam uma acuidade muito grande nos últimos tempos. Porquê? Há uma angústia, uma ansiedade nos cidadãos quanto a questões muito simples mas graves como ficar desempregado, sair da universidade ou do ensino secundário e não encontrar um emprego, a empresa poder deslocalizar-se, ir para outro país, a protecção social que tinham afinal pode desaparecer. Isto surge ligado a uma situação económica que é medíocre. De acordo com as próprias previsões oficiais, no próximo ano estamos com 450.000 desempregados. Além disso, os números mostram que já fomos ultrapassados pela Eslovénia, seremos ultrapassados em breve pela República Checa e podemos vir a ser ultrapassados pela Hungria, pela Eslováquia, pela Polónia, etc. Eu não gostaria nada de ver o meu país na cauda da Europa, na cauda de vinte e cinco ou quase na cauda de vinte e cinco países, incluindo os do Leste europeu.

O seu mandatário por Lisboa, Medina Carreira, escreveu que a social-democracia está em crise. Escreveu que sem uma economia próspera é uma pura estultícia prometer a redistribuição, o pleno emprego, a solidez do estado social. Que presente e que futuro é que vê para o modelo social europeu?
Deixemos a afirmação do Medina Carreira como base da pergunta. Eu penso que foi um erro separar a Europa social da Europa económica. Se a Europa económica for um insucesso, se for frágil, não é possível aguentar o modelo social europeu. Não existe um modelo social europeu, devo dizer, há vários modelos sociais. O que está na Europa do Norte, não tem nada que ver com o que está na Europa do Centro, nem com o que está na Europa do Sul. O que há é um conjunto de valores que estabelecem determinado tipo de protecção para quem é atingido por certos riscos, no desemprego, na velhice, na invalidez. Há um conjunto de valores comuns mas depois na aplicação há uma diferença grande entre países. O que está hoje em causa não é o funcionamento do sistema, é a sustentabilidade do sistema. A sustentabilidade do sistema é que tem levado vários países, em grande parte face à evolução demográfica, à perda de competitividade e talvez a alguns excessos de benefícios no passado, a tentar/ tentarem fazer correcções para assegurar a sustentabilidade. Mas estou convencido que o modelo social irá persistir embora com adaptações. O que há a fazer é a preparação necessária para tirar partido das oportunidades que o mundo global oferece. E aí é que se precisa de maior flexibilidade económica. E com mais flexibilidade económica talvez precisemos de redes de protecção social para aqueles que são afectados por essa flexibilidade. A Comissão Europeia acaba, neste momento, de fazer uma proposta, com a qual eu estou inteiramente de acordo, que prevê a criação de um fundo de ajustamento para os riscos da globalização. A ideia é criar uma rede de protecção para aqueles que são atingidos por reformas estruturais, que são indispensáveis para os países poderem ser competitivos, no mundo global. Para que se mantenha a protecção social que os europeus ambicionam é preciso que a economia cresça.

Se for eleito Presidente da República vai exercer funções num momento em que a UE não debate apenas o seu modelo social. Debate também a sua influência política. Por outro lado as relações com os EUA não estão no seu melhor momento. Como é que vê a perda de influência por parte da UE? Falou há pouco da ausência de líderes…
Considero que a UE é uma das prioridades da nossa política externa. Estes vinte anos provaram de forma clara que a UE é o espaço onde melhor podemos defender os nossos interesses e que é aquele que nos garante maior afirmação a nível internacional. Por isso, sou um defensor duma participação activa e empenhada de Portugal na UE, procurando contribuir para que ela responda melhor aos anseios concretos da população. E os anseios concretos da população, hoje, encontram-se no emprego, no desenvolvimento, na protecção social, na segurança. É preciso atenuar  este défice de informação e de esclarecimento que parece que tem existido por parte dos governos, dos líderes europeus em relação ao cidadão comum. Depois tentar preservar o pilar da solidariedade dentro da UE. Não vejo como é que podemos ter uma Europa politicamente coesa se não existir o elemento solidariedade. Ele não existe no Mercosul mas na UE  existe e ainda bem, porque nós sabemos que da integração resultam benefícios para o todo mas eles podem não distribuir-se equitativamente entre todos os Estados membros. Por isso sou defensor de que, ao lado do chamado mercado interno, pilar fundamental da UE, tem de existir o pilar da coesão económica e social. Depois Portugal pode desempenhar um papel importante, favorecendo o diálogo transatlântico. Eu acho que a UE e os EUA devem ter uma atitude de cooperação, de diálogo profícuo sem que isso signifique subserviência da Europa em relação aos EUA. Partilham valores civilizacionais comuns. Na maior parte dos casos, naturalmente estão do mesmo lado. A Europa não pode pretender ser uma alternativa aos EUA. A Europa precisa dos EUA tal como os EUA precisam da Europa. A maior parte dos investimentos norte-americanos estão na Europa. A maior parte das aplicações financeiras dos EUA estão na Europa. Neste momento a Europa está hesitante sobre se se aprofunda politicamente ou não. É óbvio que uma Europa politicamente frágil tem mais dificuldade em falar com uma só voz e uma voz que seja credível perante os EUA, o Japão e a China. Acho que a Europa devia, apesar de tudo, fazer um esforço para conseguir ter uma intervenção política mais forte na cena internacional, seja nos processos de paz, seja no diálogo com a Rússia, seja na resolução dos conflitos, seja no combate ao terrorismo. Depois a Europa está neste momento muito hesitante porque não sabe lidar com a emergência da Ásia. Está apoderada de medos. Medo das empresas se deslocalizarem para a Ásia. Medo de, por causa disso, não aguentar a protecção social. Está com medo da imigração…
Apesar de tudo penso que o projecto europeu é um sucesso. São cinquenta anos de paz e cinquenta anos em que o avanço da prosperidade foi notável. A prosperidade hoje na Europa não tem comparação com a prosperidade de algumas décadas a esta parte e só isso justifica a capacidade de atracção que exerce em relação a todos os países de Leste. E agora estamos a ver também a Turquia, a Croácia, os países da antiga Jugoslávia… portanto eu acho que é um sucesso. Recordo-me quando cheguei a primeiro-ministro e participei nos primeiros conselhos o que estava na moda era falar da ‘euroesclerose’. A ‘euroesclerose’ aguentou durante toda a primeira metade dos anos oitenta. A Europa não era capaz de decidir sobre nada. Dizia-se que eram os tempos da cadeira vazia. Que a Europa era capaz de fazer uma declaração sobre o Cambodja mas não sobre matérias que lhe interessassem directamente. A UE está neste momento num impasse que foi despoletado por esta Constituição europeia a que os franceses e os holandeses disseram não, em parte também pela falta de líderes. Quando nós assistimos a líderes que à segunda, terça, quarta, quinta e sexta atiram todas as culpas para Bruxelas e ao sábado e domingo pedem aos eleitores que votem na Europa… Ah, certamente não dá!

Mas o que fazer então com esse ‘objecto’ a que se chamou Constituição europeia?
Talvez hoje os líderes que estiveram na convenção reconheçam que o termo constituição não foi a palavra certa. Eu sempre preferi que se chamasse tratado. É óbvio que um documento daqueles, uma revisão do tratado daquela dimensão, nunca poderia agradar a todos. É impossível. E quando estão vinte e cinco é muito mais difícil o compromisso. Não é que fosse perfeita, mas comparada com Nice era claramente melhor. Todo o processo de decisão que saiu do Tratado de Nice foi uma confusão muito grande e neste momento o problema que se põe é como é que a UE vai funcionar com vinte e cinco Estados-membros. Agora o que a Constituição foi, foi muito mal explicada aos europeus.
A Constituição procurava dar mais força política à Europa. Também trazia a participação dos Parlamentos europeus, incorporava uma carta de direitos sociais. Não era com certeza um documento perfeito mas foi feita com os parlamentares de todos os países, com todos os governos. O momento não foi o mais adequado, a forma como tudo se processou não foi a mais adequada, e devo dizer, muito sinceramente, que não vejo como é que aquela constituição pode no futuro vir a ser aprovada. Aliás, fui dos primeiros no país a dizer que não valia a pena insistir com os referendos porque isso só desprestigiava o próprio documento.

Se tivesse sido eleito em 1996, o que teria sido diferente nos últimos dez anos em Portugal?
Não fui eleito. Respeito o resultado. Não sou capaz de dizer o que teria sido diferente até porque isso significava, de alguma forma, tomar posição em relação ao actual Presidente da República. E devo dizer que eu entendo que até ao último dia lhe devemos respeito por aquilo que ele faz. É a ele que compete fazer o juízo em relação às múltiplas decisões que vão sendo tomadas. Não quero responder sobre coisas que não aconteceram, sobre especulações.

Não teme frustrar todas as expectativas que se geraram em torno da sua candidatura?
Não sou capaz de avaliar bem as expectativas que estão criadas, até porque sou daqueles candidatos que afirmam muito claramente que só no dia das eleições é que se sabe quem as ganha. Repito, não me considero dono dos votos dos portugueses. Se for eleito, como tenho feito noutras ocasiões, dedicar-me-ei, como se costuma dizer, de alma e coração a fazer o melhor. Utilizando o meu saber, utilizando a minha experiência e inspirando-me por aquilo que escrevi no documento “Ambições para Portugal”. Qualquer um deve ter presente que eu me guiarei por aquilo que escrevi. Acho que um candidato deve falar verdade, deve ser honesto naquilo que diz aos portugueses, e eu próprio é que escrevi todo aquele documento. Achei que devia ser eu a escrever “As Minhas Ambições para Portugal”. Porque achava que devia ser eu próprio a dizer aos portugueses como é que via o exercício da magistratura do Presidente da República no caso de ser eleito. Tentarei fazer o melhor possível para ajudar a construir um futuro melhor para os portugueses, para nós e para os nossos filhos. Um futuro melhor do que aquele que neste momento perspectivo caso não se consiga inverter o ciclo negativo em que Portugal se encontra.

E desistir? Não teme resignar-se? Os portugueses já viram dois primeiros-ministros abandonar o cargo…

O texto de apresentação da minha candidatura intitula-se precisamente “Eu não me resigno”. Lutarei com todo o meu saber e a minha experiência para que Portugal reencontre o caminho do desenvolvimento e volte a proximar-se do nível médio da UE e da Espanha, cooperando leal e empenhadamente com a Assembleia da República e o Governo. Confio em que a História não se repetirá e que o Governo completará a legislatura para que foi eleito.

1 Comment

  • duplas de sucesso:
    Portugal-Cavaco e Sócrates (vítimas 2 milhões de pobres, incluindo crianças / meio milhão de desempregados) na cauda da Europa com o desgoverno do otium ludens. andam a brincar aos países
    Benfica-Vieira e Rui Costa (chutaram Camacho para canto)
    são estes alguns dos problemas do país. nunca mais voto neles. não dá direito a bis.

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