O desprezo de Che Guevara
RUI RAMOS
[Atlântico de Outubro]

Há 40 anos, a 10 de Outubro de 1967, o mundo viu finalmente o seu cadáver, deitado numa maca, com os olhos entreabertos, vidrados. Depois de dois anos de mistério e rumor, ali estava, na lavandaria do hospital de Nossa Senhora de Malta da vila de Vallegrande, no sopé dos Andes bolivianos: era o médico argentino Ernesto Guevara, aliás “Che” Guevara, o “Che”, o ex-ministro do ditador cubano Fidel Castro, o homem que todos tinham esperado ver, a qualquer momento, irromper das sombras para fazer da América Latina um enorme Vietname, capaz de absorver a última gota do poder e prestígio dos EUA. Com ele, no sul da Bolívia, morria a grande ilusão castrista de revolucionar o continente a partir de uma ilha das Caraíbas protegida pelos soviéticos.
A teoria guevarista do “foco guerrilheiro” ainda sobreviveu uns anos, entre os estudantes das universidades latino-americanas e europeias. Por fim, tudo se resumiu a uma fotografia estampada em posters e t-shirts, e ao estilo masculino “manif”: a boina, a barba, a camisa fora das calças. Para além desta iconografia, o que representa Guevara? A máquina de matar, friamente movida a fanatismo ideológico? Ou o jovem sonhador, compadecido pelos pobres? Um Hitler de boina e barbas, ou uma Madre Teresa de metralhadora?
“Esta é a história de um fracasso”.
“Esta é a história de um fracasso” – assim começou Guevara o seu relato da expedição ao Congo, em 1965. De facto, podia ter iniciado dessa maneira a história de quase tudo em que se meteu. Para começar, a sua administração da economia cubana, como presidente do Banco Nacional e Ministro da Indústria. Em Abril de 1959, Fidel Castro ainda jurava em Nova Iorque que não era comunista e que contava com o investimento americano para desenvolver Cuba. Guevara, o seu jovem companheiro argentino, ajudou-o a converter-se, prometendo que a estatização faria a riqueza per capita de Cuba ultrapassar a dos EUA em 1980.
Em 1959, Cuba, o segundo maior produtor mundial de açúcar, não era um país pobre. Tinha mais televisões per capita do que a Itália, e mais estradas por quilómetro quadrado do que Portugal. O papel de Guevara, no seu novo país, foi o de Mugabe no Zimbabué: lançar as bases para fazer de Cuba uma ruína, que só os subsídios soviéticos aguentaram. Além das estatizações em massa, decidiu abolir todos os incentivos económicos ao trabalho. Em 1965, quando abandonou o governo, o PNB per capita afundara-se (em 1999, ainda não tinha regressado ao nível de 1959). Tudo faltava e havia filas para tudo.
Em 1975, no 1º congresso do Partido Comunista de Cuba, Castro admitiu que, no tempo de Guevara, a liderança cubana desprezara a “ciência económica”. Mas o seu desprezo não se ficara por aí: chegara também à história. E se no primeiro caso pagaram os cubanos, no segundo foi Guevara quem pagou, quando saiu de Cuba como caixeiro-viajante da revolução. A doutrina soviética da conquista do poder passava então por arranjar um partido, fazer propaganda, dirigir sindicatos, e infiltrar o estado. Guevara veio vender ao mundo um método novo. Dispensava partidos e sindicatos. Era assim: no estado a subverter, de preferência uma ex-colónia tropical, estabelecia-se um grupo de comunistas armados em parte remota do território, e mal estes provassem que o exército regular não era capaz de os exterminar, as massas camponesas iriam engrossando o “foco” guerrilheiro inicial, até este avassalar as cidades.
Tinha sido assim, segundo Guevara, que ele e Fidel haviam conquistado Cuba entre 1956 e 1959. Acontece que não tinha sido assim. Em Cuba, Castro e Guevera haviam enfrentado um governo fraco e contestado por todos os partidos políticos, e a quem os Estados Unidos cortaram apoio em 1958. Não eram então publicamente comunistas, mas apenas jovens patriotas honestos, muito aplaudidos pela imprensa dos EUA. Os seus 2000 homens armados nas montanhas desempenharam um papel secundário: a maior parte das mortes resultou de confrontos entre manifestantes e a polícia nas cidades. Tudo foi finalmente decidido por intrigas de bastidores, que fizeram o ditador Batista a fugir, convencido de que os EUA preferiam Castro para governar Cuba.
De uma certa maneira, Castro e Guevara nunca perceberam ou quiseram perceber como tinham ganho. E por isso, não compreenderam que um bando de comunistas assumidos, plantado por Cuba noutro país, só podia reforçar os regimes ameaçados, unindo a opinião conservadora interna e suscitando o auxílio americano. Em 1967, na Bolívia, Guevara foi vítima de um mau livro de história (que ele próprio tinha escrito).
Poster boy.
É fácil, como se vê, diminuir o mito. Muitos já o fizeram. Valerá mais a pena perceber como é que desta colecção de fracassos se chegou ao sucesso da t-shirt. Convém recordar a época. Depois de 1956, do XX Congresso do PCUS e da invasão da Hungria, ninguém que quisesse ser levado a sério entre os intelectuais ocidentais podia entusiasmar-se com URSS, como acontecera no tempo de Estaline. Falou-se então da “morte das ideologias”. A revolução cubana mudou tudo isto. Subitamente, o comunismo renascia como uma epopeia ao ar livre, num país de praias exóticas, sob o comando de jovens literatos barbudos, sem partido nem burocracia. Ameaçada pelas invasões e embargos dos EUA, a simpatia pela revolução cubana ia além do comunismo, abarcando muitos nacionalistas ocidentais, ressentidos com a liderança americana.
Finalmente, este comunismo latino assentava numa versão moderna do mito do “bom selvagem”: o do “bom guerrilheiro”, igualmente silvestre e puro. Rapidamente, o culto arranjou o necessário filósofo parisiense, na pessoa do jovem Régis Debray. Interessou Carl Schmitt, o velho companheiro de estrada do nazismo, que em 1962 descobriu na “guerra civil socialista” uma guerra sem limites, feita por combatentes “irregulares” e assente numa “hostilidade absoluta”, e por isso muito apropriada para pôr fim à civilização burguesa, com as suas guerras limitadas por regras humanitárias. O entusiasta de Hitler entrava com emoção no mundo de Guevara.
Cuba não saía então das primeiras páginas. Em 1962, quase provocara fim do mundo, por causa dos mísseis soviéticos lá instalados. Os barbudos fascinavam a imprensa ocidental. Guevara, jovem (tinha 31 anos em 1959), bonito, vestido de maneira diferente, fumando enormes charutos, foi uma das primeiras encarnações do cool. Mais do que comunismo, foi o novo consumismo da década de 1960, focado na juventude, na irreverência e no exotismo, que fez dele uma celebridade. Guevara entrou na selecção de rebeldes fotogénicos, como John Lennon, Muhammed Ali, ou Jane Fonda. A sua primeira colecção de escritos em inglês foi financiada por uma das maiores editoras anglo-saxónicas, The Macmillan Company. A Macmillan não estava ao serviço do imperialismo soviético: queria fazer dinheiro. Guevara vendia. Quando morreu, o seu diário boliviano foi disputado por grandes editoras e jornais norte-americanos, que fizeram ofertas espantosas.
Ao novo sistema de consumo, interessava vender Guevara como um romântico desalinhado. Não era. Em 1966, partiu para a Bolívia acompanhado por quadros importantes, e em comunicação com Castro. A aventura não era um capricho, mas parte da estratégia de impor Cuba como a vanguarda revolucionária da América Latina. É verdade que Guevara deu a entender que apreciava mais a China do que a URSS (a quem nunca perdoou por não ter usado armas nucleares contra os EUA em 1962). Mas a URSS, a única potência que podia ajudar Cuba verdadeiramente, percebeu a sua utilidade como ponte com uma esquerda então muito fragmentada, que os partidos comunistas clássicos dominavam com dificuldade. Tolerou as originalidades cubanas, apoiando-as um pouco, dificultando-as também um pouco, a ver no que davam.
A morte.
Entre 1965 e 1967, não se soube de Guevara. A imprensa ocidental multiplicou as teorias e as notícias não confirmadas, criando a lenda. Guevara parece estar em todo o lado, rodeando os EUA. Régis Debray anunciava o seu iminente aparecimento na cena mundial “à frente de um movimento guerrilheiro como chefe politico e militar indiscutível”. Ninguém imaginou que, no auge do seu fulgor mediático, se arrastava com 17 homens pelo sopé dos Andes, numa região de vales e colinas despovoadas, sofrendo de asma e diarreia e apertado pela tropa boliviana. Tudo correra mal. Estava isolado, sem comunicações com Cuba (por razões técnicas) e incompatibilizado com os comunistas locais (por razões políticas).
A versão oficial foi que morreu a 8 de Outubro, em combate. De facto, foi ferido e capturado pelo 2º Batalhão de Rangers, por volta do meio-dia do dia 8, numa ravina no vale do rio Churo, e executado à uma da tarde do dia seguinte, 9, na escola da aldeia de La Higuera. Os seus admiradores atribuíram a sua morte à CIA. Não era exacto. Os Rangers bolivianos tinham sido treinadas e acompanhados por agentes da CIA. Mas a execução foi decidida pelos generais bolivianos, sem conhecimento oficial dos EUA. Os bolivianos temiam que o governo americano se sentisse obrigado a poupar Guevara, como fizera a Debray. Todos sabiam que tinham na mão uma celebridade. Este ano, um dos agentes da CIA espera fazer uma fortuna com as relíquias que, a pensar na reforma, teve o cuidado de guardar em 1967. Só com as fotografias que tirou do cadáver espera arrecadar sete milhões de dólares. Tem ainda uma mecha de cabelos para vender.

Um ser superior.
Para milhões de cubanos, Guevara não é um mistério: é apenas um dos fundadores de uma das maiores prisões do mundo, que nos mapas vem identificada como a ilha de Cuba. Quem o quiser conhecer leia o livro de Reinaldo Arenas, Antes que anoiteça. Guevara nunca é aí mencionado. Mas essa “ditadura pudica, séria, e absolutamente entediante” que vitimou Arenas tem o seu ADN. Arenas nunca foi um admirador da democracia ou da economia de mercado. Mas percebeu uma diferença fundamental, como explicou ao fugir de Cuba para os EUA: “a diferença entre o sistema comunista e o capitalista é que, embora ambos nos dêem um pontapé no cu, no comunista dão-no-lo e temos de aplaudir, e no capitalista podemos gritar; eu vim para gritar”. Na Cuba de Guevara, quem levava pontapés tinha de os aplaudir. E para perceber porquê, vale a pena ler o próprio Guevara.
O “povo” foi a grande companhia imaginária de Guevara. “Sem o apoio da população” nada podia ser feito, repete vezes sem conta. Mas essa população não era a das pessoas que existiam. Era um povo teórico, que o próprio Guevara se propunha criar submetendo a população à hierarquia e disciplina rígidas do exército revolucionário. Fora da hierarquia e da disciplina revolucionária, o povo não lhe interessava: “a democracia revolucionária não se exerce na condução dos exércitos em nenhuma época e em nenhuma parte do mundo, e onde isso foi tentado, acabou em fracasso”. Fala muito dos “camponeses pobres”. Mas diante deles, no Congo e na Bolívia, percebeu que não podia comunicar com eles. No Congo, porque os revolucionários cubanos que o seguiam nunca levaram a sério os nativos: “Os nossos eram estrangeiros, seres superiores, e faziam-no sentir com demasiada frequência”. Ele, porém, não era melhor, quando escrevia que viera para “cubanizar os congolenses”, impor ao seu desleixo a regra ascética do exército revolucionário (ficando furioso quando julgou assistir à “congolização dos cubanos”, contaminados pela anarquia local).
Na Bolívia, os camponeses que o viram e ao seu bando chamaram-lhes, como Guevara notou no diário, “os gringos”. Era o nome dado aos brancos dos EUA. Guevera, o inimigo dos gringos, era um gringo: o filho literato de uma família de aristocratas e milionários argentinos, definido acima de tudo pelo ancestral ressentimento das elites espanholas da América contra os EUA – um sentimento suficientemente forte para a família se lembrar que Guevara, em 1945, se opôs à entrada da Argentina na guerra contra a Alemanha nazi, porque considerava os EUA, e não o nazismo, o inimigo principal. Curiosamente, ao embaixador soviético em Cuba, Nicolai Leonov, Guevara não pareceu um latino. Era demasiado organizado, pontual, exacto: “como um alemão”.
O apelo de Guevara, como reconheceu Debray em A Guerrilha do Che, esteve sempre confinado à “pequena burguesia democrática das cidades” — de facto, aos estudantes, filhos das classes média e alta. Mas nem estes escaparam ao imenso desprezo de Guevara. Ele vinha da mesma classe, mas sentia-se transfigurado. Era um revolucionário – sem família, sem desejos, sem aspirações que não fossem a revolução. Mas não via essa transformação em mais ninguém. O seu relato do Congo ou o diário da Bolívia são terríveis. É o testemunho cruel de um homem exasperado pela imperfeição de tudo, pela fraqueza e irresponsabilidade daqueles que o acompanhavam. Permitia-se apontamentos venenosos, como quando nota que “o Francês (Debray) foi muito veemente ao mencionar que podia ser muito útil no exterior”. Debray nota que Guevara não queria que nenhum dos que então estavam com ele na selva boliviana voltasse à cidade. Tratou essas propostas de regresso como impulsos de cobardia e deserção, mesmo quando isso poderia ter reatado contactos e comunicações cuja falta foi fatal. Guevara controlava tudo, centralizava tudo, mandava em tudo e não confiava em ninguém. Todos se sentiam inibidos na sua presença, incapazes de tomar iniciativas sem a sua aprovação. Em geral, só mostrava apreço pelos mortos, porque só morte provava nos outros a devoção revolucionária. No Congo, encheu-se de nojo pelos seus companheiros quando compreendeu que todos queriam “salvar-se”, e ninguém queria morrer pela revolução.
O anjo severo.
Guevara desprezava profundamente os seus semelhantes, porque se convencera de que o mundo dependia apenas da vontade e do conhecimento. Por isso, os males do mundo não o levavam a compadecer-se pelos outros, mas a desprezá-los: a culpa era deles. O seu desígnio era fazer um “homem novo” a partir desse refugo humano. A magnitude da obra não lhe permitia sentimentalismos humanitários. No Livro Negro do Comunismo, a equipa de Stéphane Courtois dedicou duas páginas ao “reverso do mito” de Guevara, denunciando os fuzilamentos que ordenou em Cuba. Guevara ter-se-ia divertido com esta acusação. Ele próprio descreve os fuzilamentos, inclusivamente as reacções das vítimas no momento final, com palavras de apreço por aqueles que mostraram “serenidade”. Tudo para ele estava justificado desde que feito, sem outras intenções, em nome da criação de “um homem novo”. Em 1991, ao falar com antigos guerrilheiros argentinos, V.S. Naipaul percebeu a ética clerical de disciplina e serviço que os definia. Em França, em 1976, dois jovens maoístas, Guy Lardreau e Christian Jambet, explicaram que o que definia o revolucionário era a ascese angélica, a recusa do desejo, porque o desejo prende aos outros, e ao “sistema”. Aqui, o risco da analogia religiosa é fazer esquecer a ordem científica que, através do marxismo, sustentava a devoção de Guevara: não era uma mística, era algo que fazia sentido racionalmente. Guevara viu-se sempre como um cientista.
Em coisas revolucionárias, o fracasso, para Guevara, só tinha uma explicação: a falta de zelo e de conhecimento da teoria correcta. Ao contar a história de um camarada morto numa guerrilha falhada na Guatemala, não lhe ocorreu outra razão senão esta: “não foram atendidas as indicações tão simples que eram dadas”. Tudo tinham sido erros: “a zona foi mal escolhida, os combatentes não tinham preparo físico”, etc. Foi assim também que ele compreendeu o seu fracasso económico em Cuba. Os trabalhadores deveriam ter produzido bens e serviços por zelo ideológico, sem outro incentivo. Mas ainda não estavam suficientemente amestrados. Em o Homem e o Socialismo em Cuba, de 1965, explicou por isso que a “ditadura do proletariado”, ao contrário do que ensinavam os clássicos marxistas, não se devia exercer apenas contra a burguesia, mas sobre cada um dos membros do proletariado “individualmente”. Guevara queria transformar as pessoas. Nunca lhes interessou percebê-las.
E os outros também quase nunca o perceberam. Admiram-no como um sonhador temerário, quando ele disse e repetiu que o verdadeiro revolucionário é alguém que já não tem “sonhos” nem esperanças, mas apenas a determinação de lutar. É costume comparar a fotografia do Guevera morto a uma representação clássica do Cristo morto. Nietzsche gostava de sublinhar que Cristo morreu de compaixão pelos homens. Mas este messias marxista nunca poderia ter morrido de compaixão. Se um sentimento o tivesse de matar, teria sido o desprezo. O desprezo que hoje sentiria por todos aqueles que, nos campos universitários ocidentais, não querem morrer e andam com uma t-shirt.
